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21.09.2010
Agrotóxico, transgênicos
e o novo agronegócio
Por Débora Prado
da Caros Amigos
A
concentração no campo é conhecida inimiga na luta pela
justiça social no Brasil. No País do agronegócio – em que
usineiro é herói e a reforma agrária é divida histórica
centenária – 2,8% das propriedades rurais são latifúndios
que dominam mais da metade de extensão territorial
agricultável do país (56,7%), segundo os dados levantados
pelo Instituto Brasileiro de Geografia Estatística (IBGE) em
2006.
Mas, a
concentração no campo não se limita às propriedades. O
oligopólio das fabricantes de sementes transgênicas e
agrotóxicos se fortaleceu no Brasil nas últimas décadas,
imprimindo um novo modelo de dominação que vai do campo para
a cidade, rendendo cifras bilionárias para poucos e
prejuízos à saúde de muitos.
Detentoras
de grande capital, patentes, poderosos lobbies políticos e
com um exército técnico e jurídico a sua disposição, essas
companhias não conheceram a crise econômica.
As vendas
mundiais de agrotóxicos atingiram cerca de US$ 48 bilhões em
2009, o que significa que o faturamento das empresas deste
setor é maior que o PIB de grande parte dos países no mundo.
Entre 2000
e 2009, o mercado mundial de agrotóxicos cresceu 94%, ao
passo que o brasileiro subiu 172%.
Somente no
ano passado, foram registrados 2195 agrotóxicos no mercado
brasileiro, que movimentou US$ 6,8 bilhões, de acordo com
dados da Sindag, o sindicato das empresas.
Os dados
foram apresentados pela integrante da Gerência Geral de
Toxicologia da Anvisa, Leticia Rodrigues da Silva, em um
seminário nacional contra o uso dos agrotóxicos promovido
pela Via Campesina, em parceria com a Fiocruz e a Escola
Politécnica de Saúde Joaquim Venâncio na Escola Nacional
Florestan Fernandes (ENFF) do MST.
Apesar das
altas cifras, este é um mercado caracterizado pelo
oligopólio e por um elevado grau de concentração – 13
empresas multinacionais respondem por 90% do mercado, sendo
as 6 maiores (Syngenta, Bayer, Basf, Monsanto, Dow Quemical
e DuPont) - responsáveis por 68%.
Já
poderosas no setor de agrotóxicos, estas multinacionais
investiram ainda na compra de inúmeras fabricantes de
sementes no Brasil a partir da década de 1990 e,
recentemente, criaram o crédito direto ao produtor,
ampliando seus braços de controle sobre a produção de
nacional.
Para
Leticia, isto significa que “a relação do agronegócio e da
indústria de agrotóxico não é só de compra e venda, mas de
subordinação”.
Além dos
impactos econômicos e sociais desta dominação, a
disseminação em escala industrial dos produtos fabricados
por estas empresas é uma questão ambiental e de saúde
pública.
"No ano
passado, por exemplo, a Anvisa começou a fiscalizar as
empresas produtoras e encontrou irregularidades em todas,
como adulteração de produtos que estavam com formulação
diferente da registrada e comercialização de vencidos",
relata Letícia.
Somente na
Dow Chemical, em junho deste ano, foram interditados mais de
500 mil litros de agrotóxicos e um funcionário foi conduzido
à polícia por tentativa de omissão de produto.
A Anvisa
colocou ainda 14 agentes ativos usados em agrotóxicos que se
espalham pelas lavouras brasileiras em reavaliação – muitos
deles inclusive proibidos em outros países como os EUA e
alguns Europeus – sob suspeita de prejuízos à saúde. As
empresas do setor entraram na justiça para impedir a revisão
e até o momento quatro elementos foram banidos.
"O
problema é que o prazo entre a entrada de um produto novo no
mercado, a constatação dos seus efeitos e a retirada, no
caso de ele ser prejudicial, é muito grande. E os danos à
saúde ou mortes causadas pelos agrotóxicos geralmente são em
longo prazo, então fica difícil provar o nexos de
causalidade. Claro que há produtos em que se pode afirmar
isto e é estes que queremos banir”, ressalta Letícia,
complementando que “não há estudos em nenhum lugar do mundo
sobre os efeitos da exposição à mistura de agrotóxicos,
mesmo que seja em lavouras sucessivas”.
Para ela,
o que está em cheque é a possibilidade da população decidir
se quer ou não consumir agrotóxico. "Hoje é praticamente
impossível comprar um alimento sem agrotóxico, porque mesmo
aqueles que são produzidos sem mostram índices de
contaminação, que está em toda cadeia alimentar, na água e
até no ar”.
Com isso,
em 2009, mais de um bilhão de litros de venenos foram
jogados nas lavouras, de acordo com dados do Sindag. O
Brasil ocupa o posto de liderança no consumo desses produtos
e, segundo dados do Movimento de Pequenos agricultores, se
dividida a quantidade total de agrotóxicos utilizados em
2009 pelo número de habitantes do País, cada pessoa consumiu
em média 5,2 kg de agrotóxicos ao longo do ano.
Horacio
Martins de Carvalho, engenheiro agrônomo, avalia que este é
um um novo modelo produtivo econômico, político e cultural,
em que a patente dos genes e os Organismos Geneticamente
Modificados fazem parte das estratégias comerciais das
empresas para vender pesticidas. “O consumo mundial de
agrotóxicos determina e é determinado pela combinação do
controle privado das patentes de OGM e das fusões das
empresas da área da indústria química”, explica.
Os números
corroboram com esta avaliação. A Monsanto, por exemplo, tem
hoje 25% do mercado brasileiro de sementes de hortaliças,
segundo dados levantados pelo professor.
Já um
levantamento feito Sérgio Porto, da Conab, mostra que
somente no cultivo de soja, um dos flancos dos transgênicos
no Brasil, o uso de herbicidas passou de 142,16 mil
toneladas, em 2005, para 226,82 mil toneladas no ano
passado, um aumento de 60%.
O custeio
agrícola seguiu a expansão do uso de herbicidas, passando de
R$ 4,82 bilhões, em 2005, para R$ 8,24 bilhões no ano
passado.
“Os dados
comprovam que não se usa menos agrotóxicos, nem se gasta
menos, com os transgênicos, como os produtores costumam
dizer. Pelo contrário, o uso de herbicidas, fungicidas e
inseticidas só aumentou no Brasil”, conclui Porto.
O modelo é
altamente concentrado: das 149 milhões de toneladas de grãos
na colheita deste ano, 80% é de milho e soja e outros 10% de
arroz. Ou seja, apenas 3 produtos dominam a produção
brasileira de grãos. Isto gera uma insegurança alimentar que
pode penalizar toda sociedade. “São Paulo é o Estado com
maior insegurança alimentar em termos de demanda e oferta,
uma vez que a opção pela cana-de-açúcar leva o Estado a
trazer de fora grande parte dos alimentos”, complementa
Porto.
A
concentração em poucos produtos é acompanhada de uma
concentração regional na produção. “A transição para um novo
modelo é crucial e para isso a pressão social é necessária.
O debate sobre a alimentação saudável e o modo com se produz
deve ser um elemento central na união das lutas no campo e
na cidade”, destaca Porto. |