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22.02.2010
Afetados pela
companhia Vale realizam encontro mundial
Representantes
sociais e sindicais do Canadá, Chile, Argentina, Guatemala,
Peru e Moçambique realizam entre os dias 12 a 15/4, no Rio
de Janeiro, o 1º Encontro de Populações, Comunidades,
Trabalhadores e Trabalhadoras afetados pela política
agressiva e predatória da companhia Vale - antiga Vale do
Rio Doce.
A mineração é uma atividade extrativa que fomenta diversos
impactos ambientais e sociais nas comunidades onde os
projetos são instalados. Várias modalidades de assédio,
saúde, violação de direitos, demissões arbitrárias e danos
ao meio ambiente estão entre os pontos de pauta da reunião.
A seguir, leia a íntegra da convocatória para o encontro e
entenda os motivos que levaram comunidades de diferentes
regiões do globo a se unirem contra a companhia.
Encontro Mundial dos afetados pela Vale
Nós, organizações e movimentos sociais e sindicais do
Brasil, convocamos e convidamos organizações sociais e
sindicais do Canadá, Chile, Argentina, Guatemala, Peru e
Moçambique para o I Encontro de Populações, Comunidades,
Trabalhadores e Trabalhadoras afetados pela política
agressiva e predatória da companhia Vale do Rio Doce, em
abril de 2010 no Rio de Janeiro.
A Vale, dona que quase todo o minério de ferro do solo
brasileiro, é hoje uma empresa transnacional, que opera nos
cinco continentes, 14a companhia do mundo em valor de
mercado, explorando os bens naturais, as águas e solo,
precarizando a força de trabalho dos povos em todo o mundo.
Ela foi uma empresa estatal até 1997, quando foi privatizada
de maneira fraudulenta pelo governo Fernando Henrique
Cardoso a um valor sub-avaliado de R$ 3,4 bilhões de
dólares. Desde então gerou lucro de 49 bilhões de dólares, e
distribuiu a seus acionistas 13 bilhões de dólares, êxitos
que obtém às custas da exploração dos bens naturais, das
águas e solo e pela precarização da força de trabalho dos
povos nos países que explora.
A propaganda da Vale nos lembra todos os dias que ela é
brasileira e que trabalha com “paixão” para promover o
“desenvolvimento sustentável” do Brasil e para garantir um
futuro para nossas crianças. Utiliza em suas propagandas a
imagem de brasileiros ilustres e artistas famosos. Em 2008,
a Vale gastou R$ 178,8 milhões em propaganda (Ibope
Monitor). As bonitas imagens omitem a face oculta da
empresa, construindo no imaginário do brasileiro comum a
imagem de uma Vale patriota e paternal. Não é isso, contudo,
o que pensam as pessoas que vivem nos territórios explorados
pela Vale, seja no Brasil ou nos outros países em que a
companhia está presente. Os trabalhadores e as comunidades
afetadas, no entanto, não têm o poder e o dinheiro da Vale
para ocupar a mídia brasileira e mundial com as suas
opiniões e relatos sobre a influência da empresa sobre suas
vidas
A exploração de minério e outras atividades da cadeia de
siderurgia têm causado sérios impactos sobre o meio ambiente
e a vida das pessoas. A poluição das águas com produtos
químicos, a intervenção direta na destruição de aqüíferos, a
produção de enormes volumes de resíduos em suas atividades
de mineração (657 milhões de toneladas por ano), a emissão
de dióxido de carbono na atmosfera, o desvio de rios que
antes atendiam comunidades inteiras para uso da companhia, o
desmatamento de florestas e matas, a destruição de
monumentos naturais tombados, a mineração em áreas de
mananciais de abastecimento público, o impacto sobre as
populações indígenas e tradicionais, a poeira de minério
levantada em suas atividades, a desapropriação forçada de
comunidades, rebaixamento do lençol freático, a associação
da empresa com projetos industriais e energéticos que têm
interferido na destruição da Amazônia e do Cerrado
brasileiros, a eliminação de trechos ferroviários seculares
em Minas Gerais , os acidentes nas minas e envolvendo trens
da empresa, cuja vítima ou família não tem nenhuma
assistência por parte da companhia – tudo isso, ainda que
não sejam mencionadas nas propagandas, são as marcas mais
fortes da Vale nos territórios em que ela atua. A extração
nociva de bens naturais, destruição dos patrimônios
culturais, e os danos causados ao meio ambiente são, em
alguns casos, irreparáveis, e produzem danos permanentes à
vida.
A despeito dos visíveis danos, suas atividades continuam
respaldadas com investimentos e parcerias lucrativos. No Rio
de Janeiro, por exemplo, com a associação da Vale com a
Thyssen Krupp, através da TKCSA, está previsto um aumento de
12 vezes na emissão do poluente CO2 na cidade do Rio (O
Globo, 5/11/09). Além disso, a Vale é uma das principais
empresas consumidoras de energia, mas quase não paga por
ela: a empresa paga menos de R$ 5,00 por 100kwh, enquanto a
população em geral, assim como pequenos e médios
comerciantes e indústrias, pagam mais de R$ 45,00kwh no
Brasil.
Seus trabalhadores sofrem com demissões sem justificativa,
com ausência de medidas de segurança do trabalho e com
pressões de diversas naturezas que, muitas vezes, levam-nos
ao suicídio. Dois em 100 trabalhadores foram afastados por
acidentes em 2008, 9 morreram. A cidade de Itabira (MG),
onde nasceu a Vale, tem o maior índice de suicídios do
Brasil. É também muito alta a terceirização do trabalho, que
desresponsabiliza a companhia e precariza as relações de
emprego (146 mil empregos, 83 mil são indiretos).
A Vale tem usado a crise econômica mundial para pressionar
os/as trabalhadores em todo o mundo, reduzir salários,
aumentar a jornada de trabalho, demitir, e rebaixar direitos
conquistados com anos de luta. A greve iniciada pelos
trabalhadores e trabalhadoras canadenses desde junho de 2009
é um exemplo importante de luta e resistência contra a
arrogância e a intransigência da empresa, e, ao mesmo tempo,
de construção da nossa unidade internacional. A greve dos
trabalhadores e trabalhadoras no Canadá conta com todo o
nosso apoio e solidariedade ativa para garantir sua vitória!
A Vale usa as mesmas táticas com as populações em todo o
mundo. Ela pressiona, ameaça, coopta agentes públicos e
locais, chegando até a fazer uso de milícias e forças
militares para garantir seus “investimentos”. Em muitos
lugares, a empresa financia campanhas eleitorais,
zoneamentos ecológicos e planos diretores de municípios,
numa completa inversão do princípio da gestão política e
governamental soberana dos interesses públicos pela
sociedade.
Os cidadãos e cidadãs comuns também são atingidos, uma vez
os recursos públicos gerados pelos seus impostos são
repassados para a Vale pelo BNDES e outras agências
estatais. Enquanto os impostos são altíssimos para a
população comum, e também pequenas e medias empresas, grande
corporações como a Vale recebem anos de isenção fiscal. Os
serviços públicos para onde deveriam ser direcionados os
impostos, como hospitais e escolas, continuam em péssimas
condições. Assim, sua atuação aprofunda a dívida financeira,
ecológica e social com as populações afetadas. Cada centavo
de dinheiro público que é destinado à Vale poderia ser
investido na criação de fontes de trabalho que não
prejudicassem a vida no planeta.
É com o objetivo de mudar este quadro que estamos
organizando o encontro internacional dos afetados pela Vale.
Nós iremos demonstrar com fatos concretos e estudos de caso
o que realmente vem acontecendo à população que vive no
entorno dos empreendimentos, e aos trabalhadores da Vale.
Nosso objetivo é dar voz àquelas pessoas que sofrem
diariamente com a atuação da mineradora, sejam comunidades
próximas, desapropriadas ou áreas em que a empresa busca se
instalar, sejam os trabalhadores e trabalhadoras da empresa.
Além de expor o comportamento agressivo da Vale, nós também
iremos trabalhar instrumentos e estratégias comuns para
contestar seu poder absoluto e fortalecer os trabalhadores e
comunidades atingidas. Estes instrumentos podem incluir
acordos coletivos dos trabalhadores da Vale com demandas em
comum, monitoramento independente do impacto ambiental,
monitoramento independente dos contratos governamentais
sobre impostos, royalties, entre outros.
A articulação dos povos e movimentos nos diferentes países
em que há exploração da mineradora é fundamental para
fortalecer nossas lutas locais, nacionais e internacionais.
Precisamos nos unir para construirmos juntos nossas
estratégias, e pressionarmos nossos governos para que nossos
direitos de vida, trabalho, terra, moradia, saúde, e de um
ambiente justo e saudável sejam garantidos. E para que a
Vale cumpra mundialmente com padrões ambientais,
tecnológicos e trabalhistas elevados, e que respeite e não
tente retroceder as legislações vigentes. Não vamos deixar
que a Vale rebaixe nossos direitos conquistados e destrua
nossas vidas!
Os bens naturais e dos solos de cada país são patrimônio
soberano dos povos, não dos acionistas nacionais e
internacionais da Vale!
O leilão de privatização da Vale foi ilegal. Nós exigimos a
anulação deste leilão, como disseram cerca de 4 milhões de
brasileiros no Plebiscito Popular sobre a privatização da
Vale e a dívida pública realizado em 2007. Nós defendemos a
devolução ao povo brasileiro dos “direitos minerários” não
contabilizados na operação de venda, sua re-estatização e o
seu controle pelos trabalhadores!
Assim, convocamos as comunidades que atualmente sofrem com
os grandes empreendimentos mineradores, a sociedade civil,
os trabalhadores e trabalhadoras da Vale, movimentos e
organizações sociais, pastorais sociais, estudantes e
professores para participar da construção desse encontro, na
expectativa de uma sociedade mais justa e ambientalmente
equilibrada.
Assinam:
Campanha Justiça nos Trilhos
Movimento pelas Serras e Águas de Minas
Comitê Mineiro dos Atingidos pela Vale
Fórum Carajás
CONLUTAS
PACS
Rede Justiça Social e Direitos Humanos
Rede Brasileira de Justiça Ambiental
MST
MAB
ILAESE (Instituto Latino Americano de Estudos
Sócio-Econômicos)
CEPASP Marabá (Centro de Educação, Pesquisa e Assessoria
Sindical e Popular)
Sociedade Maranhense dos Direitos Humanos
Sociedade Paraense dos Direitos Humanos
Instituto Madeira Vivo
CPT nacional
Associação Paraense de Apóio às Comunidades Carentes
Movimento Articulado de Mulheres da Amazônia
Forum de Mulheres da Amazônia Paraense/AMB
Movimento Artístico, Cultural e Ambiental de Caeté - MACACA
Sindicato Metabase Inconfidentes - Congonhas MG
Justiça Global
Assembléia Popular Nacional
Jubileu Sul Brasil
Grito dos Excluídos – Brasil
Grito dos Excluídos Continental
Associação de Favelas de São José dos Campos/SP
IBASE
Consulta Popular
Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD)
Associação de Pescadores de Pedra de Guaratiba (AAPP)
APESCARI
Fé e Política – Sepetiba
Núcleo Socialista de Campo Grande (RJ)
Coletivo Baía de Sepetiba pede Socorro
FASE/ Amazônia
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