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22.03.2010
Itapiranga: uma luta de mais de 30 anos
Entrevista especial com Pedro Melchior
Do IHU Online
Além de
ser uma barragem que, historicamente, foi rejeitada pela
população de Itapiranga (SC), as empresas que realizam os
estudos sobre os impactos que essa obra vai trazer para a
região tem, no currículo, participação em projetos
fraudulentos.
Depois
de quase 30 anos esquecida, o PAC trouxe de volta às
preocupações dos moradores da região de
Itapiranga (SC),
a construção de uma usina hidrelétrica que pode atingir até
duas mil famílias. O projeto, segundo Pedro Melchior,
coordenador do MAB da região, começou em 1934, depois foi
retomado na década de 1970 e, em 2002, os estudos de impacto
foram refeitos para que, então, cinco anos depois, a obra
fosse incluída dentro do Programa de Aceleração do
Crescimento. “A Desenvix e outras empresas que elaboram os
estudos, como foi denunciado pelo MAB, não têm mais
idoneidade para fazer o processo de estudo de viabilidade”,
nos contou ele, nesta entrevista que concedeu à IHU On-Line
por telefone. Melchior diz que muitas fraudes já foram
encontradas em outros estudos, aplicados por essas empresas
a frente do projeto da UHE de Itapiranga. “A lógica do setor
privado não leva em conta a realidade concreta de quem vive
nesta região nos estudos”, disse ele.
Confira
a entrevista.
IHU On-Line – Como é a região de Itapiranga?
Pedro
Melchior – A região de Itapiranga é uma região de
povoado de alemães e vive praticamente da
agricultura da
integração. É uma região de pequena agricultura. É
uma região muito bem desenvolvida economicamente e
politicamente. Tem filhos que estudam na Europa. Isso no
lado catarinense. No lado gaúcho, a cultura alemã também
predomina, mas é conhecida como uma região cabocla também.
IHU On-Line – Como é o projeto da UHE de Itapiranga?
Pedro
Melchior – O projeto da usina hidrelétrica de Itapiranga
faz parte do estudo de inventários que existe desde 1934.
Nos anos 1970, a Eletrosul fez novamente um reestudo do
inventário e aí apareceu a possibilidade de construir uma
grande hidrelétrica naquela região. Naquela época, algumas
igrejas, sindicatos e universidades deram apoio à população
que estava sendo ameaçada, e organizaram os atingidos.
Fizemos, então, uma luta de resistência contrária a essa
decisão. Isso foi muito forte entre os anos de 1984 e 1985,
daí foram expulsos engenheiros da Eletrosul, foram feitas
várias manifestações. Em 2002, a Aneel autorizou uma empresa
chamada Desenvix a fazer novamente um estudo de inventário
da hidrelétrica de Itapiranga. Com isso, começaram a se
aproximar dos prefeitos dos municípios para entrar e começar
a fazer os estudos. Em 2007, essa
obra entrou no PAC. Então, depois de quase 30 anos, a
Hidrelétrica de Itapiranga foi oficializada. Novamente,
então, começamos o processo organizativo em protesto a essa
obra.
IHU On-Line – Como os movimentos sociais estão se
organizando contra a barragem?
Pedro
Melchior – O MAB surgiu, principalmente, nessa região,
nos anos 1980. Portanto, lideranças daquela época estão
conduzindo as manifestações hoje. Atualmente, a luta não é
só do MAB. A resistência contra a usina é também uma luta
dos movimentos ligados à Via Campesina, Pastoral da
Juventude, CPT e Federação de Estudantes de Agronomia. Nesse
processo, também estão na luta contra a barragem seis
prefeituras de municípios que serão atingidos.
IHU On-Line – A Desenvix está realizando os estudos
ambientais. O que o MAB pode falar sobre esta empresa?
Pedro
Melchior – A Desenvix e outras empresas que elaboram os
estudos, como foi denunciado pelo MAB, não têm mais
idoneidade para fazer o processo de estudo de viabilidade.
Já foram demonstradas fraudes em várias hidrelétricas que
essas empresas atuaram. A
lógica do setor privado
não leva em conta a realidade concreta de quem vive nesta
região nos estudos.
IHU On-Line – Quem quer concorrer no leilão para a
construção da usina?
Pedro
Melchior – A informação que temos é que nem o Ministério
de Minas e Energia sabe como vai ser o processo. Essa foi a
fala do ministro. Eles querem que, em 2013, esteja pronto,
mas não há nada definido. Ouvimos falar que provavelmente
empresas ligadas ao Governo Federal entrarão na disputa para
construir a usina. São as informações que temos.
IHU On-Line – Que alterações socioeconômicas deverão ocorrer
nas regiões atingidas pela usina hidrelétrica?
Pedro
Melchior – O que temos de informação é existe um
levantamento econômico, feito secretária da fazenda
do município, sobre como é a geração de renda nas
comunidades atingidas. Nós estamos ainda finalizando o
levantamento, mas aproximadamente se deve chegar a 150
milhões de reais por ano em relação ao impacto econômico que
as comunidades atingidas vão sofrer. E o retorno que a
Desenvix está apresentando sobre as regiões atingidas é de
cinco milhões por ano. Isso tem mobilizado a sociedade e as
prefeituras, pois os royalties que os municípios receberão
não vão compensar as perdas, já que eles já são
desenvolvidos economicamente. O estudo que fizemos aponta
que entre 1500 e duas mil famílias serão atingidas. As
empresas estão colocando até 60% menos na pesquisa. Elas
também colocam que não haveria impacto econômico porque ela
teria uma altura de 39 metros e isso é como uma enchente do
Rio Uruguai. Sabemos que isso não é verdade, que isso é
tática para fazer o levantamento e aprovar o projeto. |