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22.03.2010
As cinco
hidrelétricas no Rio Tapajós
Do IHU
“Nenhum
rio, no Brasil e no mundo, pode suportar a construção de
cinco hidrelétricas, ou até menos, em sequência.
Hidrelétricas causam prejuízos imensuráveis à
biodiversidade”, desabafa Telma Monteiro no início da
entrevista que concedeu à IHU OnLine.
Ela critica o projeto de
construção do complexo de hidrelétricas do rio Tapajós, no
Pará, onde estão previstas cinco hidrelétricas em sequência.
“O governo e seus aliados conseguiram passar as usinas do
rio Madeira pela sociedade. Eles estão conseguindo passar
com um trator por Belo Monte, embora estejamos resistindo
bravamente. E se passarem Belo Monte, não vão ter qualquer
dificuldade para aprovarem as hidrelétricas do Tapajós e
todas as outras que forem planejadas para suprir a
necessidade de obras para as grandes empreiteiras e de
energia para as grandes eletro-intensivas”, disse ela.
Telma Monteiro é coordenadora
de Energia e Infra-Estrutura Amazônia da Associação de
Defesa Etnoambiental Kanindé.
Confira a entrevista.
IHU On-Line
– O rio Tapajós suportará a construção das cinco
hidrelétricas?
Telma
Monteiro – Nenhum rio, no Brasil e no mundo, pode
suportar a construção de cinco hidrelétricas, ou até menos,
em sequência. Hidrelétricas causam prejuízos imensuráveis à
biodiversidade, imagine cinco e em sequência. Neste caso se
criariam cinco grandes lagos na região da bacia do Rio
Tapajós em sequência. Isto transformaria esses rios em uma
espécie de sistema lacustre.
Quais são
as principais falhas no projeto do Complexo de Tapajós?
Além daqueles
que apontamos para todas as outras hidrelétricas, como foi a
falha do processo de licenciamento do Rio Madeira, e estão
sendo as falhas do processo de licenciamento de Belo Monte
no Rio Xingu, no caso das hidrelétricas do Tapajós, os
impactos seriam muito grandes. Inclusive na questão de
atingir terras indígenas, que afetaria o povo Munduruku. Os
munduruku estão na região do Tapajós e serão diretamente
afetados. A relação desses índios com o ambiente natural é
muito estreita, e, no próprio inventário hidrelétrico do Rio
Tapajós, isto está muito claro.
A preservação
e o desenvolvimento dessas culturas irão depender
fundamentalmente da manuntenção desses grupos indígenas e de
seus territórios. A continuidade de suas relações com o meio
ambiente é muito importante. Quando você agride toda essa
biodiversidade que irá servir aos povos indígenas, está
fazendo com que morra a alma antes do corpo, que é a forma
mais rápida de destruição das identidades étnicas. Acho que
isso reflete muito bem o que esses grandes projetos de
infraestrutura podem causar à Amazônia, em especial, nesses
povos que já estão sendo afetados.
O projeto
ainda nem começou, mas, pela simples menção de sua
construção, esses povos já estão sendo afetados. Quando se
tem uma ocupação, como no caso do Rio Madeira, esse
precedente já é transferido para um novo local quando se
anunciam a construção de novas hidrelétricas. Começam a
fluir pessoas para esses locais, que passam a ocupar essa
região de forma desordenada, e os municípios não estão
preparados para esse processo migratório para a região. Na
hora em que se tem a divulgação da questão das hidrelétricas
nos rios Madeira, Xingu e Tapajós, é possível perceber que
as pessoas já se mobilizam para chegarem a esses lugares e
começarem a ocupar o espaço em busca de oportunidades de
trabalho. Aí começa o caos na infraestrutura da região.
Já se sabe
qual será a potência total de geração de energia do Complexo
de Tapajós?
Os estudos de
viabilidade já estão prontos e estão sendo analisados. Esses
estudos indicam que o potencial previsto é de 14.245
megawatts, isso para um conjunto de aproveitamento em
cascata nos rios Tapajós e Jamanchim. Lógico que estão neste
projeto os mesmos que estão nos outros projetos. Foi a CNEC
engenharia, uma empresa da Camargo Correa, que fez os
estudos. Inclusive a própria empresa Camargo Correa não
objetiva gerar energia, mas construir obras. A Camargo
Correa é que vai construir Jirau, está pretendendo
participar do leilão de Belo Monte e também já está
envolvida nos estudos do Rio Tapajós.
Na questão do
Complexo de Tapajós, temos outro precedente. Lá estão as
mesmas empreiteiras, cujo fim é apenas fazer obras, e não
gerar energia. Na verdade, na falta de grandes obras de
infraestrutura no Brasil durante algum tempo, estamos vendo
agora uma verdadeira indústria de construção de barragens
nos rios, em especial, na Amazônia.
As empresas
começam a buscar uma forma original de apresentar as
hidrelétricas para a sociedade. No caso do Complexo do
Tapajós, é muito interessante: eles criaram uma nova figura,
e isso foi um exercício da Eletrobrás, a da
usina-plataforma.
A quem se
destina toda a energia que será produzida nessas cinco
hidrelétricas?
Temos as
grandes usinas eletrointensivas, que são aquelas cujo
produto final requer um insumo maior de energia. Temos o
beneficiamento do alumínio, primeiro com a extração da
bauxita, que beneficia o alumínio. Antigamente, o Brasil
exportava toneladas de material mineirado. Hoje, o país
exporta quilos de alumínio. O que essas grandes empresas
eletrointensivas como a Vale precisam? Precisam extrair a
bauxita e beneficiar o alumínio, e isso acontece usando a
energia hidrelétrica. O custo menor para elas é manter essas
indústrias que beneficiam o minério perto de usinas
hidrelétricas. Onde estão essas explorações? Estão
justamente na Amazônia, a região com a maior riqueza mineral
do planeta. E o que essas grandes empresas eletrointensivas
querem? Querem explorar toda essa riqueza. Veja que algumas
já têm uma planta pronta para uma indústria em Altamira para
beneficiar a indústria de alumínio.
O que está
por trás da contratação das empresas Camargo Correa e
Odebrecht?
O que é a
Odebrecht? Antes de mais nada, ela é uma grande empreiteira.
Embora elas sejam empresas que detenham outras em diferentes
setores, sua atividade principal são obras de grande porte.
O que é uma grande barragem? É um conjunto imenso que
utiliza concreto, é uma construção pesada, que necessita de
muitas escavações em rochas e tudo isso não se consegue
fiscalizar. Isso custa muito dinheiro! Quando você faz um
conjunto de cinco hidrelétricas numa região como a do rio
Tapajós e com uma tecnologia nova, como é que essas
empreiteiras vão ser fiscalizadas, se aquele custo que elas
apresentaram para a construção não pode ser fiscalizado? Por
isso, grandes obras dão muito dinheiro para esse tipo de
empresa. Essas empresas vivem disso, e não de gerar energia.
Belo Monte
vive outro grande problema seríssimo, porque a energia que
pretendem gerar lá é de 4500 megawatts médios. Isso é
mentira. Há um estudo de 2006 que diz que é impossível gerar
esse nível de energia, a não ser que se construam mais três
energias hidrelétricas.
Querem
construir no Rio Tapajós usina-plataforma. O que é isso?
É um novo
conceito revolucionário em hidrelétricas, como diz a
Eletrobrás. A ideia é que a hidrelétrica será construída sem
que se faça desmatamento. É isso que eles estão planejando.
A Petrobrás até lançou uma cartilha com um material especial
feito para que as comunidades se apropriem dessa nova
“técnica” de usina-plataforma, que tem relação com
plataformas de exploração de petróleo no mar. Nós não
sabemos como isso pode ser transferido para o meio da
floresta. Se diz que a usina-plataforma será feita sem que
haja necessidade de canteiros de obras para os trabalhadores
fazerem a usina, e esses trabalhadores serão levados e
trazidos através de helicópteros no meio da mata. Segundo
declarações do presidente Lula e do ministro de Minas e
Energia, Edison Lobão, essas usinas-plataformas não
ampliariam o desmatamento. Esta é uma coisa muito
interessante, pois não se imagina como se pode fazer um
reservatório de uma grande usina hidrelétrica, no meio da
Amazônia, sem desmatamento. Temos duas opções: Ou o
reservatório é virtual, ou ele paira.
O que
significa a construção de dois projetos considerados “mega”
como o do rio Tapajós e o de Belo Monte?
Significa que,
na esteira desses dois projetos, que vão afetar terras
indígenas, a biodiversidade, a vida dos ribeirinhos, o
custo-benefício-social não foi divulgado. Na realidade, não
sabemos qual é o custo para a sociedade dos peixes que
deixarão de fazer a migração para a reprodução. Essas
externalidades não estão sendo consideradas e, se estão
sendo consideradas, os números não estão aparecendo.
Significa, portanto, que na esteira desses projeto há outros
tantos, como bem disse nosso Ministro Edison Lobão, numa
reunião em Brasília, que temos um potencial de
desenvolvimento para gerar energia hidrelétrica inclusive em
áreas preservadas e que até esses lugares estão no plano do
governo de exploração.
O governo e
seus aliados conseguiram passar as usinas do rio Madeira
pela sociedade. Eles estão conseguindo passar com um trator
por Belo Monte, embora estejamos resistindo bravamente. E se
passarem Belo Monte, não vão ter qualquer dificuldade para
aprovarem as hidrelétricas do Tapajós e todas as outras que
forem planejadas para suprir a necessidade de obras para as
grandes empreiteiras e de energia para as grandes
eletro-intensivas.
Com tantos
alertas e demonstrações que provam os riscos desses
empreendimentos, por que, em sua opinião, os projetos
continuam avançando? Quem pode impedir que essas barragens
sejam construídas?
Temos que
repensar o planejamento energético brasileiro. Estão
esquecendo de uma série de medidas que deveriam ser tomadas
antes de se pensar em contruir megahidrelétricas no Brasil.
Primeiro: quais são as perdas efetivas? Onde estão as contas
que demostram quais as perdas que existem no sistema de
transmissão do país? Ninguém fala disso. O próprio professor
Célio Berman demonstrou, através de um estudo com a WWF, a
necessidade de detectar quais as usinas que precisam de
repotenciação. Porque você acha que a energia eólica não
“pegou” ainda no Brasil? Porque não interessa às
empreiteiras deixar que a eólica seja uma fatia substancial
de geração de energia no país. Eólica não precisa de
concreto, não tem barragem, não tem escavações. Então,
enquanto tiver o lobby das grandes empreiteiras querendo
fazer megabarragens, nós não teremos a necessidade de
desenvolver hábitos de economia de consumo, por exemplo. |