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23.02.2010
‘Belo Monte não é uma
batalha perdida’.
Entrevista especial com Moisés Ribeiro
Fonte: IHU On-line
Moisés
Ribeiro, coordenador e integrante da direção do Movimento
dos Atingidos por Barragens, narra , em
entrevista, por telefone, à IHU On-Line, a recente audiência
do MAB com o presidente Lula. Segundo ele, "Lula agiu muito
tranquilamente. A fala dele foi neste sentido, dizendo que
nós não iríamos convergir em muitos aspectos, mas que ele
entendia que, aqueles que são obrigados a se deslocarem por
causa da construção de uma barragem, têm direito de viver
com dignidade. Porém, ele não entrou em detalhes em relação
a
Belo
Monte. Não houve nenhum debate neste sentido”,
diz.
Quando questionado sobre uma possível perda na batalha
contra a construção da usina hidrelétrica de Belo Monte,
Ribeiro demonstra a postura firme dos movimentos que lutam
contra a obra. “Para nós, Belo Monte não significa uma
batalha perdida. Queremos reafirmar que é um projeto
inviável e que não tem sentido de existir, nem em Altamira,
nem na Amazônia. Não nos damos por vencidos de forma
nenhuma. A luta continua e vai se intensificando”, garante.
Confira a entrevista.
IHU On-Line – O MAB se reuniu recentemente com o
presidente Lula. Qual foi o balanço do encontro?
Moisés Ribeiro – O principal balanço é que essa
audiência com o presidente representou, em certos aspectos,
uma divergência daquilo que pensamos e entendemos, sobre
esta questão da produção de energia no Brasil e do
setor
energético, e aquilo que o governo tem como
proposta. Até pela fala do próprio presidente, ficou claro
que não iríamos convergir em alguns aspectos. Porém
entendemos que foi positivo, em outros pontos, porque
conseguimos pautar as reivindicações e dissemos ao
presidente qual é o nosso posicionamento quanto à construção
das hidrelétricas pelo Brasil. Outro ponto importante é o
reconhecimento de que o movimento é um interlocutor dos
atingidos por barragens na negociação com as empresas e com
o governo, e é a tentativa de garantir, na própria
constituição, a questão do conceito de “atingido”, para que
possamos construir uma empresa estatal, um órgão ou um
ministério que se encarregue de tratar essas questões dos
que já estão aí, há muito tempo, lutando por direito, e
daqueles que serão atingidos por outros projetos de
barragem.
Também dissemos ao presidente que não queremos a
construção de Belo Monte. Esse foi um aspecto que
ele não quis entrar em discussão, mas demos o nosso recado.
Politicamente, o encontro foi positivo. Pautamos nosso
posicionamento e nossas propostas e entregamos um documento
para ele. Reforçamos a questão da dívida que o Estado
brasileiro tem com os atingidos. Frisamos isso e o
presidente reconheceu. A partir desse entendimento,
imaginamos que isso vá fluir melhor nas negociações com as
empresas. Claro que não íamos convergir em muita coisa, mas,
para nós, foi um ganho político neste sentido.
IHU On-Line – O governo assumiu algum compromisso com o
MAB?
Moisés Ribeiro – O próprio presidente Lula assumiu o
compromisso de chamar todos os órgãos que nós já havíamos
procurado. Já tínhamos feito dezenove audiências, com
dezenove ministérios, autarquias e estatais diferentes, mas
nada andava, todo esse processo era muito lento. Houve um
compromisso dele de chamar todos os responsáveis por esses
órgãos, para que possam encaminhar o que já vinha sendo
discutido há bastante tempo. Lula disse que esta era a
primeira de outras reuniões que ainda vamos ter com ele, e
que ele se comprometia pessoalmente em chamar todo mundo
para resolver os
problemas dos atingidos por barragens no Brasil.
IHU On-Line – Como está a luta pela revisão nos preços
das tarifas de energia elétrica?
Moisés Ribeiro – Esta é uma questão que não pautamos
diretamente. Entregamos um documento para ele, em que
propusemos que o governo encontre um mecanismo que faça com
que as empresas distribuidoras de energia, que cobraram
indevidamente mais de dez bilhões de reais do povo
brasileiro, possam devolver esse recurso para os municípios,
principalmente para os setores mais necessitados dessa
sociedade, como o de saúde, educação, moradia etc. Porém,
não pautamos este tema, em específico, na audiência com o
presidente.
IHU On-Line – Como Lula reagiu aos argumentos do MAB
contrários a usina hidrelétrica de Belo Monte?
Moisés Ribeiro – Lula reagiu muito tranquilamente.
Ele disse que nós não iríamos convergir em muitos aspectos,
mas que ele entendia que, aqueles que são obrigados a se
deslocarem por causa da construção de uma barragem, têm
direito de viver com dignidade, e têm que ter seus direitos
garantidos, como terra, casa e trabalho. Porém, ele não
entrou em detalhes em relação a Belo Monte. Não houve nenhum
debate neste sentido. Pautamos nosso posicionamento, mas não
houve nada além disso. Na verdade, o governo não quer
discutir conosco a
construção de Belo Monte.
IHU On-Line – Sobre o que, então, o senhor acha que o
governo quer falar?
Moisés Ribeiro – O governo falou sobre a questão da
garantia dos direitos. O Ministério do Desenvolvimento
Agrário cuida da reforma agrária, e, dentro dele, tem o
INCRA, que é o órgão responsável. No caso dos atingidos, há
várias estatais, Eletrobrás, Eletronorte, que fazem parte do
Ministério de Minas e Energia, mas não há uma definição
dentro do governo de que sejam responsáveis pelos atingidos
pelas barragens.
O que
ficou claro para nós é que o presidente assumiu um
compromisso de, através de uma medida provisória ou projeto
de lei, que seja definido o que se entende pelo conceito de
atingidos. Há uma proposta inicial, que é do Conselho das
Estatais do Setor Elétrico. A ideia é que esta proposta
possa ser melhorada e que possa se criar um conceito que
seja aprovado em lei ou por decreto da presidência da
república, para que, no próximo governo, isso possa estar
melhor encaminhado. Aí vamos saber qual será a empresa ou
ministério que possa cuidar desse tema, especificamente.
IHU On-Line – Qual a sua análise sobre a decisão do
governo de licenciar a obra de Belo Monte?
Moisés Ribeiro – Como é uma obra que está dentro do
PAC, e eles têm dito que é a principal obra desse programa,
fazemos a leitura de que o governo não iria voltar atrás,
mesmo sabendo que há uma série de impactos e que há um monte
de problemas que não foram devidamente dimensionados. O
governo, para atender o
interesse do grande capital, não irá abrir mão
disso. Temos uma série de grandes empresas multinacionais,
que atuam no setor elétrico brasileiro, que fazem uma
pressão imensa sobre o governo e o Ministério de Minas e
Energia. O governo vai tentar, de todas as formas, garantir
a construção de Belo Monte. Mas, para nós, fica claro que
eles usarão sempre a questão das condicionantes, um elemento
novo que eles ‘”criaram”. Eles irão dizer que estão
inaugurando outro processo, que agora existem quarenta
condicionantes, que irão garantir isso e aquilo e que eles
têm um bilhão garantido. Isso, para nós, não resolve
absolutamente a questão dos atingidos, pois, a leitura que
fazemos é de que as empresas, depois que assumem o papel de
construtoras, passam por cima de tudo aquilo que se possa
imaginar que seja direito dos atingidos.
Nós trabalhamos sempre com duas perguntas básicas: Energia
para quê? Energia para quem? Fazemos a leitura que é o
grande capital que precisa de energia para se expandir, na
Amazônia principalmente. Entendemos que esse grande capital,
que determina as coisas na sociedade atual, vai, de todas as
formas, tentar garantir mais uma hidrelétrica, mesmo
causando todos os impactos possíveis para a sociedade e o
meio ambiente.
Belo Monte é um caso emblemático nesta conjuntura do setor
energético. Há todo um conjunto de questionamentos e
especialistas que se debruçaram sobre o assunto e que estão
dizendo, constantemente, que é uma obra inviável. Sabemos,
conhecendo um pouco a região, descendo e subindo o Rio
Xingu, neste trecho onde eles querem represar, que é uma
obra que não tem a menor possibilidade de dar certo.
Principalmente, por se tratar de uma obra que não vai
produzir 11 mil megawatts de energia. O máximo que a
hidrelétrica irá produzir é quatro mil, ou seja, não vai
produzir nem 40% de sua capacidade instalada.
Belo
Monte irá produzir, segundo especialistas da
área, 39% de energia. Por mais que o governo declare que é
uma única obra, temos certeza que esta hidrelétrica é a
primeira de tantas outras que terão de sair para que a
produção de energia naquela região dê certo. Queremos
reafirmar que é um projeto inviável e que não tem sentido de
existir, nem em Altamira, nem na Amazônia. Queremos,
definitivamente dizer que somos contra
Belo
Monte, pois entendemos sua inviabilidade. Não
precisamos de energia desse tipo, pois não se trata de
energia para o povo, e sim para os grandes produtores e
consumidores. Reafirmamos nosso posicionamento, tanto o MAB
quanto os movimentos que lutam por outro projeto de
desenvolvimento na região.
IHU On-Line – Belo Monte é uma batalha perdida?
Moisés Ribeiro – Para nós, Belo Monte não significa
uma batalha perdida. Ainda está muito no início do processo.
Está aí a licença prévia, mas ainda há um bom caminho a ser
percorrido, e já há muitas ações sendo feitas. O
próprio Ministério Público Federal já está
questionando a liberação da licença prévia. Existia um
documento anterior a essa licença, que era assinado por seis
técnicos ambientais do IBAMA, onde eles diziam que havia
muitas questões sem conclusão. Eles não tinham tido tempo
hábil para chegarem a alguma conclusão, e aquelas questões,
já concluídas por eles, direcionavam para a não realização
da obra. Ou seja, eles concluíram que não havia viabilidade
para construir a obra. As outras questões, que eles não
tinham conseguido concluir definitivamente, iriam ser
reenviadas para a Eletrobrás, exigindo novos estudos.
O que sabemos é que ainda haverão entraves e lutas, isso no
âmbito da justiça. Nós, do Movimento dos Atingidos por
Barragens, vamos continuar lutando, organizando as famílias
e montando nossas brigadas para resistir ao projeto.
Entendemos que não é um projeto viável, que não irá trazer
nenhum tipo de benefício para a população que será atingida
e muito menos trazer algum tipo de desenvolvimento para
aquela região. Nenhum projeto de barragem no Brasil levou
consigo, na região onde estão instalados, algum tipo de
desenvolvimento. Não nos damos por vencidos de forma alguma.
A luta continua e vai se intensificando.
IHU On-Line – Como o MAB irá se posicionar nas eleições
presidenciais deste ano?
Moisés Ribeiro – Ainda não discutimos essa questão
dentro do movimento. Isso, por enquanto, não foi objeto de
uma análise mais aprofundada, mas, no cenário político,
sabemos quem são nossos inimigos, com quem podemos contar,
minimamente, e aqueles com quem não queremos ter nenhum tipo
de relação.
IHU On-Line – As bases manifestam preferência por algum
candidato?
Moisés Ribeiro – As bases, de uma forma ou de outra,
acabam sendo influenciadas. Nossa tarefa é levar os
elementos que julgamos necessários, para que eles façam uma
boa escolha. Entendemos que ainda existem poucos candidatos
com quem possamos construir algum tipo de relação. O que
vamos ressaltar para nossa base é que possam fazer a escolha
possível dentro desse cenário que está colocado. Faremos
esta discussão com nossa base. |