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23.02.2011
Autoridades do Ceará
fornecem água envenenada à população
Por AS-PTA
O
presidente da Fapija (Federação das Associações do Perímetro
Irrigado Jaguaribe-Apodi) admite que dá permissão para o uso
da água contaminada por agrotóxicos em troca de R$ 350 mil
por mês para projeto de irrigação.
O
presidente da SAAE (Sistema Autônomo de Água e Esgoto) de
Limoeiro do Norte apoia a distribuição da água contaminada:
“as pessoas querem a água ali, e não há agora outra forma de
levar se não retirando do projeto de irrigação.”
Pelo menos
17 pessoas na comunidade tiveram câncer. Outros apresentaram
doenças como dermatites, desregulação hormonal, dificuldades
respiratórias e insuficiência do fígado e dos rins. Um
agricultor de 29 anos morreu por uma doença crônica no
fígado. Em todos esses casos, percebeu-se a influência de
substâncias usadas nos agrotóxicos.
São
chocantes as informações apresentadas na matéria publicada
pela Uol Notícias no último dia 13, veja na íntegra:
Sem
alternativa, comunidade usa água contaminada por agrotóxicos
no interior do Ceará
Incolor,
inodora, insípida. Assim é a água que a comunidade de Tomé,
no alto da Chapada do Apodi, em Limoeiro do Norte (a 198 km
de Fortaleza), recebe nas torneiras de todas as suas casas.
Contudo, ao analisar 46 amostras dessa água retiradas de
diferentes pontos de distribuição, um estudo da Faculdade de
Medicina da UFC (Universidade Federal do Ceará) constatou
que em todas há resquícios de diferentes tipos de defensivos
agrícolas [agrotóxicos], o que faz dessa água uma ameaça à
saúde de todos que a ingerem.
Supostamente por denunciar esse fato, o líder comunitário
José Maria Filho, conhecido como Zé Maria do Tomé, foi morto
com 19 tiros em abril do ano passado, crime até hoje impune.
E agora, o Ministério Público do Estado do Ceará ingressou
na Justiça uma ação civil pública para pedir a suspensão
imediata da entrega dessa água aos moradores do local e sua
substituição por água potável, própria para o consumo, nem
que seja por carros-pipa.
A água,
distribuída pelo SAAE (Sistema Autônomo de Água e Esgoto) de
Limoeiro do Norte, é retirada de canais do projeto de
irrigação Jaguaribe-Apodi, do Dnocs (Departamento Nacional
de Obras contra as Secas). Nesse projeto, estão instaladas
empresas nacionais e multinacionais que produzem frutas e
grãos e que pulverizam agrotóxicos nas plantações, tanto com
o auxílio de tratores como de aviões. Da mesma forma que
atingem as lavouras, esses defensivos caem na água, que
corre a céu aberto entre os lotes irrigados, até chegar nas
casas das famílias de Tomé.
A água é
cobrada regularmente pelo SAAE. “Em síntese, o SAAE de
Limoeiro do Norte cobra pelo serviço de fornecimento de
água, o qual vem prestando de forma absolutamente
ineficiente, pois fornece água imprópria ao consumo humano
aos consumidores residentes na comunidade do Tomé”, diz a
ação civil pública assinada pela promotora Bianca Leal Mello
da Silva Sampaio.
A
permissão para o uso da água é dada pela Fapija (Federação
das Associações do Perímetro Irrigado Jaguaribe-Apodi), que,
em troca, recebe do SAAE o equivalente aos custos da energia
elétrica do projeto de irrigação, cerca de R$ 350 mil por
mês. Apesar de fornecer a água, o próprio presidente da
Fapija, Raimundo César dos Santos, não garante que ela é
potável. “Essa é uma água de uso exclusivo para irrigação. A
gente não se responsabiliza por ela”, afirmou, minimizando,
em seguida, o tom de alerta da própria fala. “Fizemos um
estudo de R$ 1.500 nessa água e não encontramos nada de
errado. E lá está disponível para qualquer cidadão atestar
isso também.”
Em frente
a um das piscinas do projeto que funcionam como
reservatório, porém, a própria entidade mandou instalar
placas com os seguintes dizeres: “Atenção, água não potável”
e “Atenção, proibido banho e pesca”.
Santos
justifica a permissão para o uso da água para abastecimento
humano como uma forma de viabilizar o uso da energia
elétrica para o bombeamento para irrigação. “Estamos no alto
da Chapada do Apodi, a 110 metros de altitude, e toda a água
que passa pelos 40 quilômetros de canais precisa ser
bombeada o tempo todo. São 4.800 metros cúbicos de água por
hora e sete bombas. Se não for assim, não dá para ter
plantação de nada”, afirmou.
Danos à
saúde
O estudo
do grupo Tramas, da Faculdade de Medicina da UFC, constatou
a presença de 22 princípios ativos de agrotóxicos na água
consumida pela comunidade de Tomé, assim como em outras
quatro localidades. Entre os defensivos há inseticidas,
fungicidas, herbicidas e acaricidas. Eles são usados,
segundo o geógrafo Diego Gadelha, do curso de Saneamento
Ambiental do IFCE (Instituto Federal de Educação, Ciência e
Tecnologia do Ceará), especialmente para combater uma praga
das plantações de banana, a sigatoka-amarela, um fungo que
aparece nos bananais em períodos chuvosos, por causa da
umidade.
Quando há
pulverização aérea, o veneno não atinge só a água. As casas
dos moradores da região também são afetadas, além dos
próprios moradores. A pulverização com trator também não
evita estragos. “Há um estudo da Cogerh (Companhia de Gestão
dos Recursos Hídricos do Ceará) que mostra que água
subterrânea, de poços, também está contaminada. Com isso, os
animais, os alimentos, as pessoas, tudo está sendo atingido.
E os danos vão aparecer principalmente a longo prazo, já que
o veneno fica se acumulando no organismo”, disse.
Para
alguns que trabalham na agricultura, os sintomas, porém, já
são visíveis. Pelo menos 17 pessoas na comunidade tiveram
câncer, doença que pode estar relacionada à exposição
prolongada aos agrotóxicos. Outros apresentaram doenças como
dermatites, desregulação hormonal, dificuldades
respiratórias e insuficiência do fígado e dos rins. Um
agricultor de 29 anos morreu por uma doença crônica no
fígado. Em todos esses casos, percebeu-se a influência de
substâncias usadas nos defensivos agrícolas.
Depois da
morte de Zé Maria com 19 tiros, bem na época em que foi
divulgado o estudo da UFC comprovando a existência de
agrotóxicos na água entregue no Tomé, a população dali -
cerca de 2.000 pessoas - ficou assustada. Ainda assim, todo
dia 21, data em que o líder da comunidade foi morto,
acontece uma manifestação na região.
A
constatação de que a água está imprópria para o consumo
humano, porém, não fez com que a maioria parasse de usá-la.
“Há uns três meses, a prefeitura começou a mandar água em
carros-pipa para abastecer caixas d'água da localidade. Só
que, aos poucos, como não é nada simples sair de casa com o
balde para buscar água, as pessoas voltaram a usar a da
torneira. E a própria prefeitura, há um mês, deixou de
abastecer de novo os reservatórios com água potável”, disse
o geógrafo Gadelha. “Como os problemas não surgem do dia
para a noite, todos vão usando”, completou.
Para o
presidente do SAAE, Antônio Mauro da Costa, as pessoas
querem a água ali, e não há agora outra forma de levar se
não retirando do projeto de irrigação. A única alternativa
seria a construção de uma adutora, no valor de R$ 7,5
milhões, dinheiro que ainda não tem previsão de ser
conseguido. Costa afirma que também tem estudos que mostram
que a água é boa para o consumo, apesar de a Fapija ter
instalado placas informando que ali a água não é potável.
“Se ali a
água é contaminada, a do rio Jaguaribe também é, e a dos
outros afluentes e de toda região do Vale do Jaguaribe
também são, porque aqui existe a maior empresa a céu aberto
do Nordeste, onde mais de 10 mil pessoas são empregadas. E a
luta é para se aumentar a área irrigada. Se não puder mais
usar os defensivos, tudo isso vai acabar”, disse Costa. |