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23.02.2011
Falta clareza nas
licenças ambientais de Belo Monte
Entrevista especial com
Ubiratan Cazetta
Fonte: IHU On-Line
Há dez
anos, o
Ministério Público Federal questiona as falhas no
procedimento de
licenciamento de Belo Monte, mas, com o passar do
tempo, a falta de clareza nas informações sobre a obra
aumentam. “A grande dificuldade nesta atuação decorre da
escassa
estrutura técnica para análise de todos os
aspectos envolvidos em uma obra da complexidade de Belo
Monte (questões sociais, ambientais e financeiras, dentre
outras) e da pressa com que se pretende tornar irreversível
o empreendimento”, assinala o procurador.
Em
entrevista concedida à IHU On-Line por e-mail, Cazetta
explica que o processo de
licenciamento no Brasil envolve três fases:
Licença Prévia, Licença de Instalação e a Licença de
Operação. Segundo ele, Belo Monte tem Licença Prévia, “cuja
validade é objeto de discussão judicial” e, também, uma
Licença de Instalação Parcial, que permite obras para a
implantação do canteiro da obra. “Esta licença de instalação
parcial não é prevista em nenhuma lei, o que, na visão do
Ministério Público Federal, torna ilegal que se permita o
início das obras, ainda parcialmente, sem que as
condicionantes tenham sido cumpridas”, enfatiza.
O
procurador do Ministério Público também critica as
audiências públicas realizadas para discutir a
viabilidade de Belo Monte. “Algumas audiências foram
marcadas pela exclusão da população atingida, que, na
prática, teria de se deslocar até 200 km para ir a um
auditório, onde, no máximo, teriam direito a três minutos de
fala”, denuncia. E dispara: “Isto pode ser tudo, menos
audiência pública destinada a permitir a participação da
população atingida pela obra”.
Ubiratan
Cazetta
é procurador da República no Estado do Pará e
vice-presidente da Associação Nacional dos Procuradores da
República.
Confira a entrevista.
IHU
On-Line – Como o Ministério Público Federal no Pará tem
atuado diante de Belo Monte e quais as maiores dificuldades?
Ubiratan
Cazetta –
A atuação do MPF no caso de
Belo
Monte começou há mais de dez anos, sempre
questionando falhas no procedimento de licenciamento e a
falta de clareza nas informações sobre a obra. Vários
problemas já foram atacados, mas, infelizmente, muitos deles
ainda não foram respondidos, o que faz com que o projeto
tenha um passivo de questões abertas, mal explicadas ou,
simplesmente, desprezadas, especialmente quanto aos impactos
socioambientais, atingindo as populações tradicionais (indígenas
e ribeirinhos) e o custo efetivo da obra, que
coloca em dúvida sua viabilidade econômica e sua adequação.
Hoje,
atuamos em várias frentes distintas e concomitantes: de um
lado, buscamos resolver este passivo, tentando agilizar o
julgamento das várias ações, o que, em tese, pode levar a
paralisar o andamento do projeto; em outra frente, mesmo
entendendo que o projeto não pode ser instalado, temos
acompanhado o cumprimento das obrigações impostas ao
consórcio Norte Energia, para garantir que, ao menos, o
pouco que se exigiu venha a ser efetivamente implementado.
Considerando o alto custo da obra, cujo valor ainda não foi
totalmente definido, e o volume de recursos públicos que
serão injetados e as dúvidas quanto ao retorno de tal
investimento, temos tentado evitar o desperdício de dinheiro
público.
A grande
dificuldade nesta atuação decorre da escassa estrutura
técnica para análise de todos os aspectos envolvidos em uma
obra da
complexidade de Belo Monte (questões sociais,
ambientais e financeiras, dentre outras) e da pressa com que
se pretende tornar irreversível o empreendimento. Ao lado
disso, discutir estes temas em um processo judicial é algo
bastante difícil, porque envolve assuntos complexos e
realidades dinâmicas, além da natural pressão exercida pelos
diversos grupos de interesse envolvidos.
IHU
On-Line – Qual a atual situação legal de Belo Monte? Já foi
emitida a licença prévia para o início das obras?
Ubiratan
Cazetta –
O processo de licenciamento no Brasil envolve três fases. A
primeira, na
visão
do Ibama, já foi cumprida, com a obtenção da
Licença Prévia, que, em uma simplificação grosseira,
significa dizer que a ideia do empreendimento já foi
aprovada, mas sua execução depende do atendimento de uma
série de exigências (as chamadas condicionantes). A segunda
fase é a da Licença de Instalação, que permite o início das
obras de construção e que somente pode ser concedida depois
que todas as condicionantes tenham sido cumpridas. A
terceira fase é a da chamada Licença de Operação, que
envolve o momento em que, terminadas todas as obras,
verifica-se se as condicionantes foram cumpridas e
permite-se o início do funcionamento da hidrelétrica.
Belo Monte
já tem Licença Prévia (cuja validade é objeto de discussão
judicial) e, agora, conta com uma Licença de Instalação
Parcial, que permite apenas as obras para a implantação do
canteiro da obra. Esta licença de instalação parcial não é
prevista em nenhuma lei, o que, na visão do MPF, torna
ilegal que se permita o início das obras, ainda
parcialmente, sem que as condicionantes tenham sido
cumpridas.
IHU
On-Line – Como as condicionantes de Belo Monte foram
elaboradas?
Ubiratan
Cazetta –
As condicionantes foram
estabelecidas pelo Ibama no momento da concessão
da Licença Prévia e, em tese, seriam capazes de dar resposta
aos diversos questionamentos que eram feitos quanto à
viabilidade socioambiental da obra. No momento em que
divulgadas, o Ibama e o Ministério do Meio Ambiente
garantiram à sociedade brasileira que a obra seria precedida
de medidas fortes, capazes de evitar os danos que,
espera-se, venham a ocorrer com a construção de Belo Monte.
Infelizmente, esta promessa inicial vem se mostrando muito
mais teórica do que eficaz.
IHU
On-Line – O senhor declarou recentemente que não houve
nenhuma preparação estrutural para receber operários,
máquinas e para a população que será atraída pelo
empreendimento. O que deveria ter sido feito e qual o
impacto da falta de infraestrutura?
Ubiratan
Cazetta –
Os estudos de impacto ambiental apontam que Belo Monte
atrairá uma migração de, pelo menos, 100 mil pessoas para a
região de Altamira e municípios vizinhos, dobrando, em pouco
tempo, a população que hoje habita esta região.
De outro
lado, no momento de maior criação de empregos diretos (no
terceiro ou quarto ano da obra), serão oferecidos 19 mil
empregos. Esta migração vai se destinar a municípios que
hoje já enfrentam sérios problemas com educação, saúde,
segurança pública e qualificação de mão de obra. Assim, o
próprio Ibama reconhece que uma série de medidas precisa ser
tomada: criar estruturas de saúde, educação e segurança
pública para atender a população das
cidades atingidas; capacitar mão de obra regional
a fim de garantir emprego para as pessoas da região,
diminuindo a pressão pela migração de trabalhadores de
outras regiões; preparar a estrutura de saneamento das
cidades e planejar o crescimento diante do inchaço
populacional que ocorrerá em pouco tempo.
Todas
estas medidas demandam investimentos altos, de que os
municípios não dispõem e que a Norte Energia (dona da obra
de Belo Monte) não diz como serão feitos, quem irá pagar,
qual o cronograma. Na falta destas medidas, as cidades
incharão, os problemas que já existem irão piorar e o
impacto social será cada dia mais difícil de ser resolvido.
IHU
On-Line – O que mudou física e socialmente em Altamira a
partir do anúncio da instalação do canteiro de obras de Belo
Monte? Que diagnóstico o senhor faz da cidade hoje em
relação ao passado?
Ubiratan
Cazetta –
O canteiro ainda não foi implantado, embora se anuncie o
início das obras em pouco tempo. Entretanto, o simples
anúncio da autorização da obra já fez com que aumentasse
significativamente o fluxo de migrantes, o que teria
provocado, segundo levantamentos iniciais, a chegada de oito
a dez mil pessoas desde abril de 2010. Este fluxo migratório
tem
impacto imediato na segurança pública, na saúde,
na educação, na falta de estrutura do município, criando
áreas de periferia cada vez mais carentes de infraestrutura.
IHU
On-Line – Há casos de prostituição em Altamira? Com as obras
e o número de operários instalados na região, a prostituição
se torna preocupação relevante?
Ubiratan
Cazetta –
O fluxo migratório que Belo Monte irá provocar terá, sim, um
impacto importante (e preocupante) no aumento de diversos
problemas sociais. O aumento da prostituição e das doenças
sexualmente transmissíveis é um dos componentes importantes
deste quadro.
IHU
On-Line – Considerando que não há entendimento interno entre
órgãos como Ibama, Conama, por exemplo, que órgão é o
responsável legal pelo licenciamento de Belo Monte?
Ubiratan
Cazetta –
O licenciamento de Belo Monte é atribuição do Ibama, que
deve ouvir outros órgãos em temas específicos, tais como a
Funai, na questão indígena, e o Iphan na questão
cultural e de patrimônio histórico.
IHU
On-Line – Quando, de fato, Belo Monte poderia sair do papel?
Ubiratan
Cazetta –
Esta é uma
das perguntas mais difíceis de serem respondidas, já que
envolve diversos juízos de valor, alguns dos quais de
natureza política, de políticas públicas que merecem ser
decididas democraticamente, com a participação da sociedade
brasileira.
Podemos,
entretanto, fazer uma escala de perguntas a serem
respondidas, antes de se chegar a uma conclusão.
A primeira
coisa a saber é se, diante dos
impactos socioambientais de Belo Monte, a obra é,
de fato, a melhor opção para responder à necessidade de
energia do Brasil para os próximos anos. E, para dar esta
resposta, é necessário saber o que é mais eficiente:
construir Belo Monte ou diminuir as perdas na transmissão de
energia? Alguns estudos apontam que a redução das perdas
daria um ganho equivalente a 1,5 vezes o máximo de energia
que Belo Monte será capaz de produzir nos seus melhores
dias, com um custo menor e sem criar novos danos. Outras
opções não estudadas seriam fontes alternativas (energia
eólica, por exemplo) ou a chamada repotenciação, que seria
melhorar a capacidade de produzir energia das usinas já em
funcionamento. A questão, então, é saber se,
efetivamente, Belo Monte é a melhor opção.
Se
concluirmos que Belo Monte é a melhor opção, é necessário
identificar todos os impactos da obra (ambientais, sociais
etc.) e definir as medidas para que estes danos não ocorram
ou, se forem inevitáveis, como diminuir sua dimensão e
compensar os prejuízos.
É
necessário, também, fixar o custo da obra (que iniciou
cotada em 9 bilhões de reais, passou para 19 bilhões, já
está em mais de 25 bilhões e que, segundo alguns cálculos,
pode chegar a 44 bilhões. Toda esta indefinição impede que
seja feita uma decisão racional, que considere a relação
custo/benefício e impeça o desperdício de dinheiro.
A própria
viabilidade da obra precisa ser avaliada, pois, apesar da
propaganda oficial, Belo Monte não irá produzir 11mil Mw,
como se costuma anunciar. Esta capacidade máxima somente
será atingida em três ou quatro meses de alguns anos, quando
a vazão
do
rio Xingu atingir seu ponto máximo. Na média,
Belo Monte deve gerar quatro mil Mw, o que é bem menos do
que o discurso oficial anuncia. Este cálculo de produção
efetiva ainda pode ser atingido pelas projeções de mudança
climática, que apontam uma diminuição na vazão do rio Xingu.
Em resumo,
é necessário ter alguma certeza sobre a viabilidade da obra,
seu custos e seus impactos, antes de se iniciar a
construção.
IHU
On-Line – Quais os motivos que favorecem a flexibilização na
legislação, nos estudos e nos relatórios de impacto
ambiental no Brasil?
Ubiratan
Cazetta –
Há uma constante discussão entre a demora no licenciamento e
a qualidade das licenças concedidas. A pressão para que as
regras ambientais sejam diminuídas estão normalmente ligadas
a uma falsa concepção de que o licenciamento ambiental é uma
mera burocracia, que atrasa o desenvolvimento econômico do
país.
O fato é
que os
órgãos ambientais não são fortalecidos, não tem
capacidade de interferir nas políticas públicas e acabam
sofrendo pressões, lícitas ou não, para liberar licenças
mesmo que os estudos sejam incompletos ou as condicionantes
não tenham sido cumpridas.
IHU
On-Line – Qual sua avaliação das audiências públicas
realizadas no Brasil, em especial as que dizem respeito a
obras do porte de Belo Monte?
Ubiratan
Cazetta –
As
audiências públicas deveriam se destinar a
fornecer informações sobre a obra a todos aqueles que serão
atingidos positiva ou negativamente pela obra.
Deveriam
ser, em resumo, um momento democrático em que a população
deveria ter direito de conhecer de que forma uma determinada
obra vai atingir sua vida.
No caso de
Belo Monte, entretanto, ao invés de um momento de debate
público, as audiências foram vistas como mera formalidade,
como um ato que deveria ser realizado apenas para dizer que
ocorreram. Algumas audiências foram marcadas pela exclusão
da população atingida, que, na prática, teria que se
deslocar até 200 km para ir a um auditório, onde, no máximo,
teriam direito a três minutos de fala. Isto pode ser tudo,
menos audiência pública destinada a permitir a participação
da população atingida pela obra.
IHU
On-Line – Qual o espaço de reivindicação dos indígenas que
vivem na região? Como eles são tratados?
Ubiratan Cazetta –
A
questão indígena, infelizmente, vem sendo tratada
como um problema e não como uma obrigação do Estado
brasileiro de respeitar a cultura e a dignidade das
comunidades indígenas. Tem-se desde o desprezo à necessidade
de ouvir as comunidades até o risco de cooptação de
lideranças. Em resumo, as comunidades não foram ouvidas e,
embora afetadas diretamente, há um discurso oficial que nega
que Belo Monte seja um caso concreto de aproveitamento de
recursos hídricos de áreas indígenas e, com isto, retira das
comunidades boa parte do seu protagonismo. |