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25.01.2010
Haiti - Terremoto é
desastre natural, mas a pobreza extrema, não
As
imagens das TVs de todo o mundo mostram um verdadeiro
inferno. Destruição total, corpos estirados, homens e
mulheres aos prantos. Os relatos dos repórteres nos jornais
que foram a campo não são diferentes. Saques a
supermercados, violência, desespero.
Quase em
uníssono, os meios decretaram: os efeitos do terremoto de 7
graus na escala Richter ocorrido no dia 12 no Haiti são
ainda mais graves devido à extrema pobreza em que vive a
população do país, o de menor Índice de Desenvolvimento
Humano (IDH) do hemisfério ocidental. A análise um tanto
óbvia não é incorreta, mas a imprensa em geral “esqueceu-se”
de explicar o porquê de tanta miséria, praticamente
naturalizando o subdesenvolvimento acentuado do Haiti.
“É preciso
que se diga que se, de fato, as causas da tragédia são
naturais, nem todos os efeitos o são”, opina Aderson
Bussinger Carvalho, advogado e ex-conselheiro da Ordem dos
Advogados do Brasil (OAB) que visitou o país em julho de
2007. “É preciso saber que indústrias exploram a mão-de-obra
barata haitiana, cujos produtos são exportados para o
mercado dos EUA, assegurando imensos lucros que não se
revertem em favor do povo. As casas construídas somente com
areia, a ausência de hospitais, a falta de luz e água...
tudo isso vem de antes do terremoto”, afirma.
Pobreza
extrema
Atualmente, 80% dos haitianos vivem abaixo da linha de
pobreza, sendo que 54% se encontram na extrema pobreza. A
mortalidade infantil é de cerca de 60 mortes para cada mil
nascimentos (no Brasil, a proporção está em torno de 22 para
mil), a expectativa de vida é de 60 anos e o analfabetismo
atinge 47,1% da população.
Além
disso, o país sofre com a falta de infra-estrutura e
indústria nacional. As estradas são bastante precárias,
assim como as áreas de energia, telecomunicações e
transporte. Dois terços dos haitianos dependem da
agropecuária para sobreviver, enquanto apenas 9% trabalham
em fábricas, em sua maioria nas chamadas maquiladoras,
unidades especializadas em produção de manufaturados para
exportação que se utilizam de mão-de-obra barata. “Durante o
ano de 2009, percorremos todo o Haiti. Nossa brigada
percorreu dez departamentos e conhecemos a situação de
pobreza em que vive a imensa maioria da sociedade haitiana”,
relata José Luis Patrola, militante do Movimento dos
Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e integrante da Brigada
Internacionalista Dessalines da Via Campesina, que atua com
as organizações camponesas do país.
Triste e
estranha realidade para uma nação que foi a segunda das
Américas a se tornar independente (da França) e a primeira a
abolir a escravidão, em 1804. Ou seja, que tinha tudo para
oferecer uma vida digna para seus habitantes.
Construção
histórica
“A pobreza
extrema do Haiti é uma construção histórica bi-centenária,
produto da incessante intervenção colonialista e
imperialista, em boa parte devido precisamente a ter sido o
Haiti a primeira e única nação negreira onde os
trabalhadores escravizados insurrecionados obtiveram a
liberdade. Isso após derrotar expedições militares francesa,
inglesa e espanhola”, explica Mário Maestri, historiador e
professor do Programa de Pós Graduação em História da
Universidade de Passo Fundo (UPF), no Rio Grande do Sul.
Segundo
ele, a partir de então, o Haiti passou a ser temido pelos
EUA, pois poderia servir como exemplo aos escravos
estadunidenses. Assim, o país passou a “ser objeto de
bloqueio quase total, desde seus primeiros anos, pelas
nações metropolitanas e americanas independentes. Já em
1825, foi obrigado a pagar, sob pena de agressão militar,
pesadíssima indenização à França. Conheceu nas décadas
seguintes intervenções militares dos EUA, que, mesmo após a
desocupação, em 1934, transformaram o país em semi-colônia,
sobretudo através das sinistras ditaduras dos Duvaliers,
Papa-Doc e seu filho [entre 1957 e 1986]”.
De acordo
com Osvaldo Coggiola, professor de História Contemporânea da
Universidade de São Paulo (USP), o Haiti não é uma exceção
na região em que se encontra, mas um caso extremo da
dominação imposta pelos países centrais do capitalismo.
Assim, para ele, “atribuir seus males à incapacidade da sua
população, descendente de escravos forçados a trabalhar na
ilha pelos colonialistas franceses, é um conceito
abertamente racista. A classe dominante, ela sim, é corrupta
até a medula. Se chegar ajuda para o governo local, vão
roubar, para vender e chantagear a população”.
Casas
amontoadas
Além da
pobreza, outro fator vem sendo apontado como potencializador
dos efeitos do terremoto, embora ambos estejam fortemente
vinculados: a grande quantidade de pessoas vivendo nas
cidades (especialmente na capital, Porto Príncipe) em casas
amontoadas e construídas precariamente, o que fez com que
desabassem mais facilmente. Segundo Patrola, o desastre
deixou evidente a precaridade do sistema urbano no Haiti.
“Porto Príncipe e as favelas de Cité Soleil e Bel-air foram
construídas de forma espontânea com a ausência de recursos
mínimos de construção civil. Isso potencializou a
destruição”.
Aqui,
outra triste e estranha realidade: como se explica que um
país cuja agricultura representa 28% do PIB (no Brasil, esse
índice é de 7%) possua um índice de êxodo rural tão
acentuado e tenha 47% de sua população vivendo na zona
urbana?
“Pela
eliminação das culturas agrárias locais pelos produtos
importados, inclusive os das famosas 'ajudas
internacionais'. O subdesenvolvimento eliminou as florestas
locais, pois o carvão é quase a única fonte de energia no
interior. Em 1970, o Haiti era quase auto-suficiente em
alimentação, hoje importa 60% do que come”, responde Osvaldo
Coggiola. Segundo dados da ONU, entre 2005 e 2010, a
população das cidades haitianas cresceu 4,5% por ano.
Migração
O
historiador Mário Maestri explica que a revolução de 1804
teve como consequência a divisão dos latifúndios existentes
em lotes familiares, que retomaram as tradições camponesas
africanas, proporcionando uma independência alimentar. No
entanto, “as intervenções imperialistas, com a colaboração
das frágeis e corruptas elites negras e mulatas,
desdobraram-se para metamorfosear a agricultura
familiar-camponesa em mercantil. Levantes camponeses foram
duramente reprimidos, para reconstituir a grande
propriedade”, diz.
Patrola,
da brigada da Via Campesina no Haiti, responsabiliza ainda
as políticas neoliberais mais recentes pelo “desmonte” do
campo. “A abertura comercial está destruindo a agricultura
haitiana. O Haiti é o quarto importador de arroz dos Estados
Unidos”, diz.
O
resultado de todo esse processo vem sendo uma grande
migração para a cidade. E hoje, de acordo com Maestri, as
enormes massas de miseráveis urbanos são vistas como
mão-de-obra extremamente barata para as indústrias
maquiladoras que se estabeleceram no Haiti.
Eduardo Sales de Lima e Igor
Ojeda, da Redação do Brasil de Fato |