Ao que parece,
diante das crescentes referências, está se consolidando no mercado
mundial uma atividade cada vez mais poderosa - o hidronegócio. Na
verdade, devemos compreender o hidronegócio a partir da
compreensão do que seja água virtual, que é o conceito utilizado
para calcular a quantidade de água necessária para produzir um
determinado bem, produto ou serviço.
À primeira vista
associa-se o hidronegócio ao tratamento e distribuição de água,
às engarrafadoras e outras atividades deste tipo, mas ele é muito
mais abrangente e complexo do que isto. A água virtual está
presente em tudo que usamos e consumimos, porque é parte de todos
os processos de produção, direta ou indiretamente.
Na prática, a água
virtual é o produto do hidronegócio e o agronegócio é o seu
principal consumidor. O aparente sucesso do agronegócio nacional,
também significa que somos, crescentemente, grandes exportadores de
água. E isto interessa a diversos países que consideram
''sustentável'' subsidiar seus agricultores, poupando escassos
recursos hídricos ao importar carne e grãos de países do terceiro
mundo. Isto pode ser demonstrado em interessante artigo da
engenheira Vânia Rodrigues, disponível em http://www.aesabesp.com.br/artigos_agua_virtual.htm.
O volume de água
exportado pelo agronegócio é mais do que significativo, mas a
água virtual também tem peso em outros setores. No Brasil, nossa
geração de energia elétrica é essencialmente hidrelétrica, o
que faz a água ser componente de tudo que demanda energia
elétrica. Isto é muito claro na indústria eletrointensiva
(alumínio, siderurgia, ferroligas, papel e celulose e
petroquímica).
Dados do Ministério
de Minas e Energia demonstram que 408 indústrias eletrointensivas
consomem 28,8% de toda a energia elétrica produzida no País, o que
a faz, ao mesmo tempo, massiva exportadora de energia elétrica e
água. Vejamos um exemplo prático - metade da energia elétrica
produzida em Tucuruí é contratualmente destinada à industria de
alumínio. Cerca de 41% do custo final do processamento do alumínio
corresponde à energia elétrica e, no caso de Tucuruí, isto é
significativo porque sua tarifa subsidiada é 30% menor do que seria
no sul ou sudeste do país.
É por isto que o
Japão produzia 1,1 milhão de toneladas de alumínio por ano e
baixou a produção para apenas 41 mil toneladas/ano, passando a
importar o restante. Neste caso, a indústria eletrointensiva é
''competitiva'' porque, como todas as exportações de bens
primários de baixo valor agregado, soma mão de obra barata,
energia elétrica subsidiada e gigantescas quantidades de água
virtual.
Enquanto isto, o
hidronegócio discreta e silenciosamente trabalha pelo controle do
acesso à água. O açude controlado pelo coronelismo é algo da
pré-história do hidronegócio, porque era muito mais uma questão
de política paroquial do que de negócio.
O semi-árido
brasileiro já possui uma impressionante rede de reservatórios,
açudes e adutoras, mas a maior parte da população continua sem
acesso à água, majoritariamente destinada à agricultura de
exportação. Este é um processo que se repete em boa parte dos
paises do terceiro mundo e não é uma mera coincidência.
Esta é a lógica do
hidronegócio, que será cada vez mais concentrador do acesso à
água, na medida em que os recursos hídricos forem mais escassos.
Quanto menor for a disponibilidade hídrica em um país ou região,
maior o valor agregado aos bens e produtos em razão do ''preço''
da água virtual. A partir do controle dos reservatórios e açudes
cresce a tendência de buscar, como negócio, ter o controle de toda
a água disponível. Logo, quem controlar uma nascente, um
manancial, também controla toda a bacia e, por conseqüência,
impõe seu poder de negociação em toda a água virtual incorporada
à produção da região.
Nos novos projetos
de hidrelétricas já existe a concepção de que a água estocada
no reservatório é um negócio em paralelo à própria geração de
energia elétrica. No caso do aqüífero Guarani não é diferente
porque, independente de sua vasta área, ele possui poucas áreas de
recarga e afloramento. E, neste sentido, ter a ''propriedade'' das
áreas de afloramento também equivale a ter a ''propriedade'' do
aqüífero.
Se não
compreendermos a importância de implementar as políticas públicas
de proteção aos mananciais e ao acesso à água, estaremos
subsidiando o poder econômico e político de quem controlar os
''estoques'' de água.