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28.10.2009
A farra das
distribuidoras de energia
Empresas lucraram 7
bilhões de reais indevidamente
Por Alexania
Rossato e Sílvia Alvarez
Reações
de todo tipo vieram à tona com o anúncio de que as 63
distribuidoras de energia elétrica do país estão acumulando,
desde 2002, um valor de 7 bilhões de reais a mais pelo preço
cobrado nas tarifas de energia elétrica devido a um erro no
cálculo para os reajustes anuais.
As irregularidades foram
reveladas pelo Tribunal de Contas da União (TCU) ao realizar
uma auditoria nas companhias energéticas de Pernambuco
(CELPE), Minas Gerais (CEMIG), Maranhão (CEMAR), Piauí (CEPISA)
e Alagoas (CEAL) para saber por que as contas de luz tinham
aumentos superiores à inflação. Para todos os brasileiros,
as tarifas de energia elétrica aumentaram cerca de 400%,
justamente no período da maior onda de privatização do setor
elétrico.
A Aneel (Agência Nacional de
Energia Elétrica) é a responsável pelos cálculos no reajuste
das tarifas aplicado pelas distribuidoras. No entanto, a
agência reguladora não admite a distorção, mesmo
considerando necessária a revisão no processo de reajuste
tarifário determinada pelo TCU.
A
irregularidade nos cálculos
Além dos serviços prestados
pelas distribuidoras de energia, são cobrados 11 encargos
setoriais na conta de luz, embutidos na tarifa. Esses
encargos financiam programas federais, como o Programa de
Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa)
e o Luz para Todos, e deveriam ser pagos pelas
distribuidoras. No entanto, irregularmente, as
distribuidoras repartem esse custo entre o seu total de
consumidores, cerca de 63 milhões em todo o território
nacional.
Já que o total de consumidores
aumenta a cada ano e o preço cobrado pelos encargos continua
o mesmo, as distribuidoras arrecadam cada vez mais. Se uma
distribuidora arrecada 50 bilhões a mais, por exemplo, esse
valor não é repassado para os programas do governo, muito
menos devolvido aos consumidores. O destino dele é certo:
aumentar as taxas de lucro das empresas. No reajuste, a
Aneel verifica se a distribuidora pagou o valor que devia ao
governo, os adicionais são embolsados, ou melhor, roubados
pelas distribuidoras.
Isso não poderia ocorrer
porque a distribuidora não pode obter nenhum ganho no
recolhimento de um encargo e a remuneração da empresa só
pode acontecer pela prestação do serviço de distribuição. Ou
seja, desde 2002, as distribuidoras de energia estão tirando
do bolso dos consumidores um bilhão de reais ao ano, num
total de 7 bilhões nesse período.
As distribuidoras de energia
não tem se manifestado e a Associação Brasileira de
Distribuidores de Energia Elétrica (Abradee) se limitou a
emitir uma nota segundo a qual compete à Aneel o reajuste
das tarifas, logo "é impossível atribuir às distribuidoras
qualquer responsabilidade pela tarifa fixada ou, muito
menos, qualquer inadequação jurídica, ética ou de qualquer
outra natureza por haver apenas praticado a tarifa fixada
pela Aneel e cuja legalidade é incontroversa”.
Só a
ponta do iceberg
Para o professor da
Universidade Federal de Mato Grosso, Dorival Gonçalves
Júnior, o fato das empresas terem lucrado 7 bilhões de reais
indevidamente “é só a ponta do iceberg”. Segundo o
professor, as empresas distribuidoras tem vários outros
mecanismos para lucrar às custas da população, além desse
evidenciado pelo TCU. “A própria Aneel, é bom dizer, atua,
através de suas leis e regras, para garantir o funcionamento
do setor elétrico brasileiro de modo que beneficie o lucro
das empresas”, afirmou.
“Como a hidroeletricidade -
que é a base da matriz energética brasileira – têm um baixo
custo de produção, a Aneel teve que criar uma metodologia
para as empresas conseguirem lucrar ‘legalmente’ com ela. O
sistema de mercado livre é um exemplo. Nele, as empresas
compram energia livremente, não precisando se submeter à
tarifa imposta pela Aneel”, denunciou Gonçalves.
O outro exemplo é o preço
cobrado pela energia aos consumidores cativos (aqueles que
não compram no mercado livre, ou seja, a maioria da
população). Mesmo com o baixo custo, o preço da energia
elétrica deixou de ser cobrado pelo seu custo de produção
real (baseado na hidroeletricidade) para ser definido pelos
padrões internacionais e determinado pela energia que tem o
maior custo de produção, predominante nos demais países: a
energia térmica, proveniente principalmente do petróleo.
Reações
Logo após a divulgação do erro
nos reajustes tarifários praticados pela Aneel e
distribuidoras contra o povo brasileiro, entidades de defesa
dos consumidores reagiram. A Pro Teste protocolou um
processo administrativo na
agência reguladora
pedindo para que crie mecanismos de compensação a
partir dos próximos reajustes de energia, dos valores
cobrados a mais nos últimos sete anos.
A Fundação Procon, o
Ministério Público Federal, a Defensoria Pública e outros
órgãos do consumidor estiveram reunidos em São Paulo com
distribuidoras no último dia 22 com o objetivo de obter o
compromisso de que esse montante pago a mais pelo consumidor
seria devolvido e também receber a garantia de que esse
valor a mais não continuaria a ser cobrado. No entanto, não
houve acordo, porque as distribuidoras insistem no argumento
de que não estariam ocorrendo irregularidades na cobrança.
Já a Comissão Parlamentar de
Inquérito (CPI) das Tarifas de Energia Elétrica da Câmara
dos Deputados informou que pretende exigir a devolução do
valor pago a mais pelos consumidores. Durante depoimento à
CPI, ocorrido em setembro, o diretor da Secretaria de
Fiscalização de Desestatização do TCU, Marcelo Gomes, já
alertava para o fato de o cálculo do reajuste tarifário
anual não levar em conta o aumento de demanda por energia
elétrica. "A concessionária acaba ficando com essa receita
de forma indevida - do ponto de vista regulatório geral de
eficiência -, em vez de passar para o consumidor."
Para Gilberto Cervinski, do
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), esta denúncia
só reforça o que o MAB e diversas organizações e entidades
da Via Campesina e da Assembléia Popular tem afirmado desde
o início da Campanha contra os Altos Preços da Energia
Elétrica, em 2007. “O atual modelo elétrico não favorece o
povo e sim as grandes empresas, quase todas estrangeiras. No
plebiscito popular que realizamos em 2007, mais de 3 milhões
de brasileiros disseram não a essa exploração no preço da
luz. Viemos sistematicamente denunciando a atuação das
geradoras na violação dos direitos dos atingidos e das
distribuidoras na ineficiência do serviço e no verdadeiro
roubo que representa hoje o preço da energia elétrica pago
pelas famílias”, afirmou.
O MAB
estuda também formas e possíveis ações a serem realizadas
para mais uma vez denunciar a estratégia das empresas e
órgãos reguladores que a cada dia praticam atos legais ou
ilegais, mas que sempre visam o mesmo objetivo, que é
explorar ao máximo o povo brasileiro.
FONTE:
Brasil de Fato |