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29.07.2010
A alimentação dos
brasileiros está cada vez mais envenenada
Pesquisadores e movimentos sociais alertam sobre a
duplicação em um ano
dos índices de uso de agrotóxicos no Brasil
Pedro Carrano, de Curitiba
para o Brasil de Fato
O
brasileiro ingeriu, em média, 3,7 quilos de agrotóxicos em
2009. Trata-se de uma massa de cerca de 713 milhões de
toneladas de produtos comercializadas no país por cerca de
seis corporações transnacionais. Estas empresas controlam
toda a cadeia produtiva, da semente ao agroquímico ligado a
ela. Uma condição que pressiona o agricultor familiar, refém
da compra do “pacote tecnológico” gerador da dependência na
produção. O capital dessas companhias do ramo é maior que o
produto interno bruto da maioria dos países da Organização
das Nações Unidas. Só no Brasil lucraram 6,8 bilhões de
dólares em 2009.
Para
tanto, o país ergueu a taça de campeão mundial em uso de
agrotóxicos e bateu outro recorde: duplicou o consumo em
relação a 2008. Relatórios recentes da Agência Nacional de
Vigilância Sanitária (Anvisa), que vem sendo criticado pelo
lobby do agronegócio, apontam que 15% dos alimentos
pesquisados pelo órgão apresentaram taxa de resíduos de
veneno em um nível prejudicial à saúde. Cana-de-açúcar,
soja, arroz, milho, tabaco, tomate, batata, hortaliças (veja
tabela) são produtos do dia-a-dia que passaram a ter alto
índice de toxidade.
Agroquímico, semente, terra e mercado fazem parte da mesma
cadeia produtiva sob controle dos monopólios. Larissa
Parker, advogada da Terra de Direitos, aponta uma relação
direta entre a concentração do mercado de sementes e de
agrotóxicos. A transnacional Monsanto controla de 85 a 87%
do mercado de sementes. No caso do transgênico Milho BT (da
empresa estadunidense), de acordo com a advogada, o próprio
cereal é desenvolvido com uma toxina contra determinado tipo
de praga. Ainda assim, agricultores no Rio Grande do Sul
precisaram realizar mais de duas aplicações de agrotóxicos
na lavoura. Os insetos mostraram-se resistentes à substância
tóxica. Na Argentina, as corporações cobram patentes apenas
dos agrotóxicos e não das sementes, já que o seu uso está
atrelado a elas.
Apesar de
surgir como a “salvação da lavoura”, prometendo aumento de
produtividade, a introdução do químico ligado à semente
transgênica incentivou o aumento do uso de tóxicos. O
cultivo da soja teve uma variação negativa em sua área
plantada (- 2,55%) e, contraditoriamente, uma variação
positiva de 31,27% no consumo de agrotóxicos, entre os anos
de 2004 a 2008, como explicam os professores Fernando
Ferreira Carneiro e Vicente Soares e Almeida, do
Departamento de Saúde Coletiva da Faculdade de Ciências da
Saúde da Universidade de Brasília (UnB).
Além
disso, produtos que foram barrados no exterior são usados em
diferentes cultivos brasileiros. Entre dezenas de
substâncias perigosas, o endosulfan, por exemplo, é um
inseticida cancerígeno, proibido há 20 anos na União
Europeia, Índia, Burkina Faso, Cabo Verde, Nigéria, Senegal
e Paraguai. Mas não é proibido no Brasil, onde é muito usado
na soja e no milho. |