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29.09.2010
Foz do Chapecó: Terras
alagadas, direitos não reconhecidos
De São Paulo, da Radioagência
NP, Danilo Augusto

Em maio
deste ano, aproximadamente três mil famílias de 13
municípios do estado do Rio Grande do Sul e de Santa
Catarina tiveram que deixar suas casas. O motivo: suas
terras foram alagadas pelas águas do Rio Uruguai, que
subiram por causa da Usina Hidrelétrica Foz do Chapecó. A
empresa responsável pela obra, a Foz do Chapecó Energia
S.A., reconheceu que pouco mais de 2,4 mil famílias seriam
atingidas pelo empreendimento, porém, de acordo com o
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), o número não
confirma a realidade.
Dentre
essas famílias, a situação de oito delas chama a atenção.
Isso porque, foram alojadas, há quatro meses, em um ginásio
de esportes da Prefeitura de Rio dos Índios, região do Alto
Uruguai, no Rio Grande do Sul. Desde então, as famílias, que
podem ser despejadas do local a qualquer momento, ainda não
receberam qualquer indenização da empresa. O trabalhador
Milto Girelli, um dos 24 moradores do ginásio, sendo oito
deles crianças, relata como foi o processo de despejo das
casas atingidas pela empresa.
“Estávamos
morando em nossas terras, aí chegaram com ordem judicial,
demoliram nossas casas, jogaram nossas mudanças na rua e nos
deixaram lá. Fomos tratados como bandidos.”
Segundo
Milto, as dificuldades são grandes. Ele espera que a
situação seja resolvida o mais brevemente possível.
“Não
estamos querendo nada que não nos pertence. Só queremos
nossos direitos. Tínhamos onde morar e onde viver e agora
estamos na 'rua'. Nossa situação é de calamidade, tem dias
que não temos nada para comer.”
Versão da
empresa
Em nota, a
empresa Foz do Chapecó Energia afirma que as “famílias
alojadas no ginásio não fazem parte do público atingido pela
usina”. E que “as indenizações e benefícios oferecidos pela
empresa foram direcionados aos moradores que fossem
proprietários de terras atingidas e posseiros de boa fé de
terras atingidas.”
De acordo
com o diretor superintendente da Foz de Chapecó, Paulo
Eduardo de Almeida, Godói, as famílias são frutos de um
problema social e a empresa está cumprindo com suas
obrigações e atribuições.
“Não temos
nenhuma responsabilidade. Eles não são proprietários de
terra e nunca foram. Essas famílias não foram atingidas
diretamente pelo reservatório da usina. Nenhuma das pessoas
preenche qualquer um dos requisitos que foram estabelecidos.
Elas são de fato problema social da região. Por isso não
vamos assumir um problema social que não é nosso.”
Prefeitura
O prefeito
de Rio dos Índios, Valdemar Veloso Batista (PDT), estranha a
postura da empresa. Ele relata que, inicialmente, a Foz de
Chapecó fez até mesmo uma proposta para as famílias, que por
vários motivos foi negada. Ele afirma que, se a empresa não
tivesse nenhuma responsabilidade, não teria sentido tentar
fazer acordo de reconciliação com as famílias.
Ele ainda
relata que o município perdeu mais de 500 moradores por
causa da hidrelétrica, fato que vai gerar problemas até
mesmo com arrecadação. Ao final, ele afirma que a Prefeitura
não tem condições de manter as famílias no ginásio e que
está sofrendo pressão dos munícipes. O ginásio é o único
lugar de lazer da cidade que conta com pouco mais de 4 mil
habitantes e está inativo por causa do problema.
“Agora
fica muito fácil para a Foz de Chapecó dizer que é um
problema do município. Não foi um problema gerado pela
Prefeitura. A Prefeitura não desapropriou ninguém; não
desapropriou terrenos e nem terras. Pelo município, estariam
todos tranquilos nas suas terras. A situação está bem ruim
aqui. Veja, eles moravam na beira do rio, local que foi
atingido e que já está submerso. Sabendo disso, procuramos
todos os meio para fazer um acerto para essas pessoas
permanecerem no município, mas não está sendo possível. A
Prefeitura, por se tratar de um município pequeno, não
dispõe de recursos para ficar mantendo essas pessoas na
totalidade.”
Modelo
nacional
Para o
integrante da coordenação do MAB na região, Pedro Eluis
Nilchiurs, a prática de não reconhecimento de famílias
atingidas por esses grandes projetos é comum entre essas
empresas que geram energia. Ele também lembra que mais de 60
famílias tiveram ordem de despejo e diz que é irregular a
forma que é definida se uma família é ou não atingida por
uma hidrelétrica.
“É
arbitrária a forma como a empresa determina qual o conceito
de atingido, qual a área atingida e qual o próprio direito
do atingido. Então, o MAB sempre denuncia que essa é uma
prática das empresas ligadas à indústria da geração de
energia, que usam dinheiro público para praticamente
expulsar as famílias de suas terras. É uma falta de respeito
da empresa que tenta empurrar os problemas para cima dos
órgãos públicos, seja na esfera federal, estadual e até
municipal”.
A Usina
Hidrelétrica Foz do Chapecó tem um faturamento de R$ 60 mil
por hora. O contrato de concessão da empresa é de 35 anos,
com funcionamento de 24 horas por dia. 75% dos custos da
construção, que corresponde a R$ 1,65 bilhão, vieram do
BNDES. A Foz do Chapecó Energia S.A. é formada em sociedade
pela Camargo Correia e pela Chapecoense Geração. |