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30.04.2010
“Crime de encomenda é
covardia", diz ministro da Justiça
Por Cristiane Passos
Da
CPT
Luiz
Paulo Barreto recebeu, nesta quinta-feira (29/4), a Comissão
Pastoral da Terra e representantes de outras organizações do
campo, para a entrega dos 25 relatórios anuais publicados
pela CPT desde 1985, o Conflitos no Campo Brasil, além de
uma lista com os casos de assassinatos e julgamentos entre
os anos de 1985 e 2009, e uma Nota Pública da entidade sobre
os casos de agentes de pastoral perseguidos e ameaçados em
todo o país.
Na
ocasião, o bispo emérito da cidade de Goiás e conselheiro
permanente da CPT, Dom Tomás Balduino, apresentou ao
ministro todos os relatórios, declarando serem dramáticos os
números e dados ali apresentados. Estavam, também, na
audiência, Isolete Wichinieski, da coordenação nacional da
CPT, Dom Dimas Lara Resende, secretário geral da CNBB,
Marina dos Santos, da direção nacional do MST, deputado
federal Pedro Wilson (PT/GO), Nilton Godoy, assessor da
senadora Serys Slhessarenko, e cinco representantes da
FETRAF.
Dom Tomás
aproveitou a ocasião para dizer que aquelas páginas, com 25
anos de parte da história dos conflitos agrários no país,
estavam manchadas de suor e sangue dos trabalhadores e
trabalhadoras do campo. Isolete Wichinieski, da coordenação
nacional da CPT, reafirmou ao ministro Barreto que a questão
dos conflitos no campo pode ser resolvida dentro de um
projeto maior de realização de uma legítima e ampla reforma
agrária. Ele chegou a perguntar aos presentes se já não
estava sendo concretizada uma reforma agrária durante o
governo Lula, o que foi questionado pelo grupo. Marina, do
MST, reiterou ao ministro que além da não realização da
reforma agrária, a permanência da concentração fundiária
mantém os conflitos e a prática da violência no campo.
O ministro
reconheceu todos esses problemas e ainda complementou que o
mais grave deles é a impunidade que persiste quanto aos
crimes no campo. “Precisamos avançar na punição dos
culpados”, disse Barreto. Ele se mostrou disposto a atuar
com mais veemência nessa questão e pontuou algumas propostas
para dinamizar o trabalho nos estados, como a criação de
unidades internas de resolução e punição dos crimes oriundos
dos conflitos no campo, em parceria com o Conselho Nacional
de Justiça (CNJ). O ministro enfatizou, também, que é
preciso, o quanto antes, combater principalmente os casos de
pistolagem, “crime de encomenda é covardia!”, complementou.
Trabalho
Escravo
Sobre o
combate ao trabalho escravo, a CPT aproveitou a oportunidade
para denunciar que denúncias não têm sido apuradas por causa
da falta de efetivo da Polícia Federal. Diante disso,
Barreto pediu para que a Pastoral o informe dos casos em que
não houve fiscalização por esse motivo, que ele irá
averiguar. Dom Dimas se disse indignado pela não aprovação
da PEC 438/2001, conhecida como PEC do Trabalho Escravo, que
prevê o confisco das terras onde forem encontrados
trabalhadores em condições análogas à escravidão. “É uma
vergonha para o nosso país que essa Emenda Constitucional
ainda não tenha sido aprovada”, disse o secretário geral da
CNBB.
Lentidão
do Judiciário
Os dados
apresentados pela CPT quanto aos casos de assassinatos e
julgamentos em conflitos no campo nos últimos 25 anos,
ilustram veementemente a lentidão do Judiciário na
instalação dos inquéritos, na investigação desses crimes e,
principalmente, na condenação dos responsáveis. A frieza dos
números só não perde para a frieza da prática da violência
contra os trabalhadores e trabalhadoras rurais em todos
esses anos. De 1.546 assassinatos, apenas 88 casos terem
sido julgados, com a condenação de 20 mandantes, mais do que
vergonhoso é um fato incentivador e mantenedor da violência
no campo. O deputado Pedro Wilson ponderou isso com o
ministro durante a audiência. Barreto admitiu a dificuldade
de instalação dos inquéritos como consequência da
fragilidade dos laudos construídos quando desses crimes, e
da apuração das provas no local.
Outro
ponto que resulta dessa constante violência em meio aos
conflitos, são as ameaças e perseguições a trabalhadores e
trabalhadores, além de lideranças, sindicalistas, agentes de
pastorais e militantes dos movimentos sociais. Por isso, a
CPT apresentou ao ministro da Justiça uma Nota Pública onde
denuncia as perseguições sofridas nos últimos meses por
agentes da Pastoral da Terra, em diversas regiões do Brasil.
Pelo menos seis agentes da CPT sofreram ameaças ou foram
perseguidos nos primeiros meses desse ano por causa de seus
trabalhos com os povos do campo, na defesa dos seus direitos
e na organização de suas lutas. |