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30.10.2009
Cimi discute
desenvolvimento e desterritorialização
Fonte:
Cimi
O
desenvolvimento como dominação da natureza é uma idéia
poderosa e coloca os movimentos sociais em situação
antagônica ao que é pregado como bom, moderno. Essa
avaliação do pesquisador Guilherme de Carvalho, da FASE-Pará,
foi apresentada nesta quarta-feira (28/10), no painel “Atual
modelo de desenvolvimento: os grandes projetos como
estratégia de desterritorialização dos povos tradicionais e
dominação dos territórios pelo capital”, durante a XVIII
Assembléia Geral do Cimi, que acontece entre 27 e 30/10, em
Goiás.
Segundo
Guilherme, a criação do antagonismo desenvolvimento
versus movimentos sociais posiciona diversas
organizações, entre elas o próprio Conselho Indigenista
Missionário, como forças que impedem, que são empecilhos ao
crescimento do país, pois, a própria concepção de natureza
dos povos indígenas vai contra a idéia dos países
industrializados.
O
progresso e o desenvolvimento acabam se apresentando como
domínio da natureza e como uma missão civilizatória das
nações poderosas, que entendem que o seu modelo deve ser
seguido por outros países. Este modelo aparta o homem da
natureza, ou seja, faz com que o homem se coloque como parte
separada do meio natural e não como integrante desse meio.
Também apresenta o questionamento do modelo como “ser do
contra” e define que há uma linearidade do progresso, sendo
a situação dos países ricos, uma meta a ser atingida – o que
seria um mito, pois a própria natureza não suportaria.
Outra
questão importante para o predomínio desenvolvimentista é o
uso da ciência e da técnica para dar mais veracidade ao
discurso. “Seria a crença de que a técnica pode nos salvar”,
ressalta Guilherme. Nesse contexto, surgem as “empresas
verdes”, que ressaltam sua “responsabilidade
sócio-ambiental”, que fazem pesquisas científicas para
tentar comprovar a sua boa relação com o meio ambiente. Com
as pesquisas e a fala técnica, muitas empresas acabam se
tornando mais simpáticas ao mercado consumidor.
Guilherme
ressalta a capacidade dos grandes empreendimentos de se
articular nos mais diferentes níveis. “Eles tecem teias
internacionais, nacionais, estaduais, municipais, etc. E é
assim que nós, enquanto movimentos sociais, devemos agir.
Tecendo teias, se articulando para construir parcerias em
diferentes planos”, afirma. “Somente a luta política pode
reverter a situação de domínio”, finaliza.
Modelo
energético
Também
participou da mesa o professor Célio Bermann, do Instituto
de Energia e Eletrotécnica da Universidade de São Paulo
(USP), apresentando dados sobre o modelo energético e os
projetos que envolvem grandes demandas de energia em terras
indígenas, em áreas protegidas e na Amazônia legal.
Segundo o
professor, a população não sabe os verdadeiros números de
consumo de energia e apenas ouve que é necessário construir
mais hidrelétricas para aumentar a produção de energia. Mas
a situação, na realidade, é diferente. De acordo com dados
apresentados por Bermann, somente as empresas de mineração,
do setor energético e outros segmentos de indústria pesada
consomem 48,4% da energia do país.
Pelo
aumento de consumo, justificam a necessidade de construção
de mais usinas hidrelétricas e, o mais preocupante, na
região amazônica. Há uma visão equivocada de que o
aproveitamento dos recursos hídricos gera uma energia limpa.
Segundo o professor, a disseminação dessa idéia coloca a
população num “beco sem saída”: ou se aceita a energia das
grandes hidrelétricas ou será necessário utilizar energia
nuclear.
Célio alertou que, para a
construção das hidrelétricas, tentam enfatizar que os
problemas ambientais são irrelevantes e para isso, elaboram
vários projetos de lei. “É necessário que a população esteja
atenta e que mude o questionamento. Deve-se perguntar
primeiro para quê servirá a energia; depois de que forma
fazê-la”, finalizou. |