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30.11.2009
Carta às comunidades do
rio Canoas

Leia a
carta final do Seminário Sobre Grandes Projetos de Energia e
suas Conseqüências que aconteceu nos dias 18 e 19 de
novembro, em Cerro Negro, SC
Seminário sobre
Grandes Projetos de Energia e suas consequências
Comunidade
Araçá, Cerro Negro, SC
18
e 19 de novembro de 2009
Nós,
populações ameaçadas pela barragem de Garibaldi, atingidos
por varias outras barragens como Barra Grande, Campos Novos,
Itá, Foz do Chapecó, Machadinho e Itapiranga, trabalhadores
eletricitários, movimentos sociais, ambientalistas,
comunicadores populares, ONGs, entidades e organizações,
lideranças políticas, representantes de igrejas, estivemos
reunidos na comunidade de Araçá, no município de Cerro
Negro, nos dias 18 e 19 de novembro em um seminário sobre
“Os grandes projetos de energia e suas conseqüências”.
Juntos, inspirados no profeta Isaías, do oriente médio, e em
João Maria, da luta do Contestado, que alertavam o povo para
que se unissem contra os grandes inimigos, concluímos:
-
Que as
barragens são parte de um modelo de desenvolvimento que
enriquece grandes grupos econômicos transnacionais;
-
Que as
grandes empresas transnacionais estão buscando tomar
conta do patrimônio do povo brasileiro e dos bens
naturais estratégicos, como a água, a energia, os
minérios, as terras e a biodiversidade;
-
Que as
hidrelétricas tem como único objetivo garantir altas
taxas de lucro para seus donos, que exploram o povo e
destroem a natureza
-
Que o
discurso propagado pelos construtores das barragens, com
promessas de desenvolvimento e progresso, é uma mentira;
-
Que as
barragens têm deixado em nossos municípios uma enorme
divida social e ambiental: famílias são transformadas em
sem-terra, terras férteis são alagadas, florestas são
destruídas, os peixes que nos alimentam desaparecem,
espécies de plantas e animais são extintas;
-
Que as
barragens têm provocado diversas violações dos direitos
humanos em todas as partes do Brasil, direitos que
deveriam estar assegurados pela constituição nacional e
acordos internacionais;
-
Que as
mulheres têm sido as maiores vítimas da implantação
deste modelo, sofrendo todas as formas de violência e
opressão; e, além de não terem seu trabalho reconhecido,
são excluídas de todos os processos de participação e
decisão antes, durante e depois da construção das
barragens;
-
Que as
barragens tiram o trabalho, os meios de produção e a
fonte de renda das famílias e ainda destroem o modo de
vida e a cultura do povo que vive da terra;
-
Que as
barragens não produzem energia limpa e representam
falsas soluções ambientais e climáticas, pelo contrario,
alteram o clima local e agravam a vulnerabilidade das
populações aos eventos climáticos extremos;
-
Que as
empresas construtoras de barragens têm utilizado
diversas formas e práticas de atuação para enganar o
povo: uso da violência, ameaças, perseguição, falsas
informações, compra e cooptação de lideranças,
autoridades e representantes do judiciário,
financiamento e criação de falsas organizações;
-
Que a
energia produzida pelas barragens privilegia grandes
empresas eletrointensivas exportadoras, como empresas de
minério e celulose que tem recebido a eletricidade
subsidiada, enquanto para o povo o preço da luz é um
roubo;
-
Que o
rio Canoas, o rio Pelotas, e o rio Uruguai estão se
transformando num território controlado por meia dúzia
de empresas estrangeiras, como Alcoa, dos Estados
Unidos, a Tracetebel-Suez da França e Bélgica, e a
Votorantim, do grande capital nacional;
-
Que os
governos, de forma geral, não inspiram a confiança do
povo, pelo contrário, tem colocado todo o aparato do
Estado para privilegiar as empresas construtoras de
barragens que financiam suas campanhas eleitorais;
-
Que o
BNDES tem sido um banco que usa o dinheiro público para
privilegiar e financiar grandes empresas privadas a
menores taxas de juros, e não políticas sociais ou
pequenas e médias empresas que geram mais emprego e
qualidade de vida local;
-
Que
quem paga a conta de tudo isso é o povo atingido e toda
a sociedade.
Somos
todos atingidos
Somos
atingidos porque as famílias sofrem perdas e os direitos são
negados; somos atingidos no preço da luz; somos atingidos
porque as barragens são construídas com o nosso dinheiro,
através do BNDES; somos atingidos porque a natureza é
destruída; somos atingidos porque as empresas trazem para a
região o aumento de doenças, de drogas, prostituição e
violência para a região, e provocam o êxodo rural e mais
pobreza nas cidades. Somos atingidos pela privatização dos
bens e serviços. Somos todos atingidos porque nos tiram à
riqueza dos nossos rios e o ambiente saudável para a nossa
vida e a dos nossos filhos e netos.
Denunciamos
o processo de criminalização, perseguição e desqualificação
de todas as lideranças, movimentos e organizações populares
que tem se intensificado hoje na região, no Brasil e no
continente, como parte das táticas utilizadas pelo grande
capital e pelos governos.
ÁGUA E
ENERGIA NÃO SÃO MERCADORIAS |