Um conto barrado

Havia um riacho lá pras bandas do Sertão que em época de chuva enchia muito. Os caminhantes e os moradores admirados com a cheia do riacho exclamavam “Como o riacho está Soberbo!” E o adjetivo passou a denominar o local. São Sebastião do Soberbo, onde os dias passavam tranquilos. As casinhas, construídas com muita peleja, se comunicavam pelas cercas que jamais eram vistas como barreiras à amizade da população. As frestas das janelas deixavam escapar risos e cochichos. Os senhores e as senhoras pescavam, os jovens andavam a cavalo, as crianças brincavam nas ruas empoeiradas, e todos, todos iam à missa.

A vida em Soberbo era difícil, mas tranquila. Porém o mundo muda e, certo dia, o progresso chegou a Soberbo. “O sertão vai alagar!” Disseram os engravatados. Mas o povo não entendia. A não ser que São Pedro falhasse, como poderia seu Sertão encher? Mas quando os engenheiros, caminhões e tratores chegaram o povo entendeu que terra alaga não por mão divina, mas sim por mão de gente. “Vai alagar” cochichavam “que há de ser das mangueiras? E as casas? A igreja? E o santinho que fiz pro altar de Nossa Senhora”? 

E então veio a ordem da justiça dos homens dizendo que, para o bem social, eles teriam que deixar suas casas, esquecer sua história, abandonar seus mortos, esquecer os manguezais, a igreja e o santinho do altar de Nossa Senhora e enterrar seus sonhos. A barragem tem prioridade. É prioritária às roças, às famílias e à vida. E os engravatados construíram uma cidade nova, linda, sem quintal, sem manguezal, sem pomar, sem galinheiro, sem estrada empoeirada, sem amizade e sem água de qualidade. E o povo viu que teria realmente que deixar seu sertão.

As obras começaram. Os tratores rasgavam clareiras do sertão. A barragem comia o povoado, seus campos e matas ao redor. Os caminhões cruzavam as estradas sem parar e chegaram a um próximo vilarejo: Santana do Deserto. Os morados de Santana sabiam da voracidade da barragem que engolia Soberbo. Das janelas de suas casas viam a maquinaria desfilar. Durante aqueles longos dias Santana perdeu seu silêncio. Os caminhões gritavam vivas ao progresso e as pessoas gritavam pelo nome de Soberbo. E era tanta maquinaria nas pequenas estradas de Santana que as casinhas velhas e humildes não resistiram e o povo viu subirem rachaduras pelas paredes.

Os tratores também cruzaram a vida de outras famílias camponesas e cruelmente destruíram plantações que matavam a fome. E Gerônimo também foi afetada. Eles teriam de sair da terra pela qual lutaram tanto, mas nunca conseguiram comprar. Cuidaram dela, fizeram-na florescer, produzir. dada E por mais que a terra lhes fosse arrendada e que nunca puderam compra-la, ela era deles! Eles a roçaram, eles a semearam, eles a fizeram fecunda. Mas agora a terra não era deles. Era da barragem. 

Mas o povo gritou! Bateu o pé, fez ocupação, fez caminhada, cantou. O povo queria o sertão. O povo queria suas memórias, sua igreja, sua roça e os manguezais. E o povo ficou no sertão. Mas a justiça dos homens agiu novamente. Um batalhão foi posto contra o povo, para destruir seu amado sertão. Com medo as pessoas fugiram de madrugada, fizeram pilhas e fogueiras para atrapalhar a passagem dos carros dos opressores. Mas eles vieram. Passaram por cima de tudo e de todos, e vieram. E o que se viu foi um massacre.

Os móveis retirados, quebrados, lembranças estraçalhadas, direitos violados, famílias humilhadas. Os amigos montaram barricadas e os moradores assistiram escondidos no cemitério em cima do morro, ao lado de seus falecidos conterrâneos, a destruição de seu lar, de sua roça, de sua terra e de seus sonhos. E o sertão alagou. A água tomou tudo, inclusive a vida das pessoas.

E a Vale e a Alcan gritavam nas rádios, jornais e telejornais: “A barragem de candonga vai contribuir para o fim da crise energética do país”. O povo da cidade aplaudiu os engravatados que lutam para o desenvolvimento da Nação. Apesar de não saberem que eles lutavam para o progresso deles próprios e que toda aquela energia movimentava o capital e não a nação. E o povo do campo chorou seus mortos, suas perdas e desilusões.
A Barragem de Candonga esconde histórias de omissão da verdade e violação dos direitos humanos. Mas nós não esquecemos. Não esqueceremos jamais.