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Pequeno histórico do Setor
Elétrico Brasileiro
Já houveram muitas crises de abastecimento de energia elétrica. O
que é que a história nos ensina? Vejamos um pouco da história do
setor elétrico brasileiro e vamos ver as lições que se pode
tirar.
O
setor elétrico brasileiro passou por três fases
1
-O Paraíso das Grandes Companhias Estrangeiras (1890-1934)
A primeira experiência pública com lâmpada elétrica no Brasil
aconteceu em 1879, com a iluminação da Estação Central da
Estrada de Ferro D. Pedro II, atual Central do Brasil, no Rio de
Janeiro.Neste período histórico o domínio da geração de energia
estava basicamente nas mãos de duas empresas estrangeiras a Light e
a ANFORP.
Mas é no final do século XIX e início do século XX que a energia
elétrica vai se difundir.. A Light também monopolizava os
serviços de fornecimento de gás e telefonia no Rio de Janeiro. Na
década de 20, a Light e a AMFORP controlavam São Paulo (capital e
interior), Rio de Janeiro e a maior parte das capitais do país.
Ao lado destas duas gigantes, pequenas companhias privadas
sobreviviam em pequenas cidades, cujo pequeno e pouco lucrativo
mercado não interessava às duas empresas monopolistas. Durante
este período o Estado não intervinha na produção e
distribuição de energia, apenas conferia autorizações para o
funcionamento das companhias. Não havia qualquer legislação sobre
a energia elétrica e sobre recursos hídricos. Os estados e
municípios gozavam de grande autonomia para estabelecer contratos e
autorizações para as empresas privadas de energia.
E as companhias tinham direito a corrigir suas tarifas e a receber o
equivalente em ouro (a chamada “cláusula-ouro”), de maneira a
ficarem protegidas da inflação e da desvalorização da moeda
brasileira – naquela época era o mil réis. Era o paraíso para
as grandes empresas privadas estrangeiras: usavam a água à
vontade, produziam a quantidade de energia que queriam e onde
queriam. E, para completar: combravam o preço que achassem
necessário … e, ainda por cima, o governo convertia isso em ouro.
2- O Código de
Águas e a Tentativa de Regular as Companhias Privadas Estrangeiras
(1934-1961)
Em 1934 vai ser aprovado um Código de Águas que, pela primeira
vez, vai estabelecer regas para o uso da água e para a produção e
fornecimento de energia elétrica. Uma primeira versão deste
código havia sido enviada ao Congresso em 1907, mas a força da
Light e Amforp era tal que tinha ficado engavetado. Com a
Revolução de 30 e a subida de Vargas ao poder, o Governo Federal
fará nova ofensiva e conseguirá aprovar, contra a vontade das
empresas, o novo Código.
Muitas foram as modificações introduzidas. As mais importantes
foram as seguintes: A propriedade dos rios deixava de ser do
proprietário da terra onde corriam e passava, conforme o caso, a
ser propriedade do município, do estado ou da União. Por outro
lado, o Código estabelecia uma série de regras e restrições ao
uso das águas, determinando que o uso para abastecimento humano era
o mais importante. A propriedade das quedas d’água e do potencial
hidrelético deixava de ser do proprietário da terra e passava a
ser patrimônio da naçã, sob a forma de propriedade da União.
A partir de então, o aproveitamento de potencial hidrelétrico
passou a depender de autorização ou concessão (por prazomáximo
de 30 ou 50 anos, conforme o montante dos investimentos) As tarifas
passariam a ser fixadas segundo os custos de operação e o valor
histórico dos investimentos, o que significava o fim da “cláusula-ouro”
e da correção monetária automática conforme a variação
cambial. Estado (governo federal) passava a deter o poder de
concessão e de fiscalização, estabelecendo, pelo menos
teoricamente, as condições para controlar as atividades das
empresas privadas.
Não é necessário dizer que as grandes empresas privadas partiram
para a guerra contra a nova legislação. Tudo fizeram para boicotar
de todas as maneiras a aplicação da lei. A Light em razão de seu
enorme poder, chegou a ser apelidada nos anos 50 de “polvo
canadense”, pois controlava com seus tentáculos parte dos poderes
judiciário, legislativo e judiciário. Assim como os
latifundiários têm a sua bancada – a chamada “bancada
ruralista”, existia a “bancada de deputados e senadores a
serviço da Light”.
Também tinha muitos juízes a seu serviço, assim como grandes
jornais e revistas, estações de rádio Apoiava sistematicamente os
candidatos e partidos conservadores, anti-populares e submetidos ao
imperialismo. Enviando para o a matriz no exterior a maior parte dos
seus lucros, sobrava muito pouco para que a Light e Amforp
investissem na expansão da geração e distribuição de energia
elétrica. E elas só investiam ali onde tinha a certeza de que os
retornos seriam altos. Com o avanço da urbanização e da
industrialização, a crise se instalou. Faltava energia elétrica
para o abastecimento das cidades, para a expansão industrial …
Para a agricultura, nem falar, pois não era suficientemente
lucrativo. Por isso também, muitos bairros pobres das grandes
cidades, como as favelas, não tinham abastecimento de luz
elétrica. Em 1954, no segundo Governo Vargas, um Plano Nacional de
Eletrificação vai tentar equacionar o enfrentamento desta crise
crônica, Tratava-se de comprometer diretamente o Estado com
intervenções voltadas para acabar com a falta de energia
elétrica.
3- O Modelo
Estatal das Grandes Hidrelétricas (1962-1990)
A primeira intervenção direta do governo federal na produção de
eletricidade aconteceu em 1945, quando foi criada a Companhia
Hidro-Elétrica do São Francisco (Chesf), com a tarefa principal de
construir e operar a Usina de Paulo Afonso – inaugura em 1955.,
com potência instalada de 180.000 kW. Para se ter uma idéia do que
isso significava na época, basta dizer que a capacidade
total de geração na região era, à época da inauguração, de
110.000 kW.
A crise de energia resultante da falência dos modelo privado de
geração de energia elétrica na década de 1950 também levou
vários governos estaduais e intervirem no setor. A primeira entre
as empresas estaduais foi a CEEE, do Rio Grande do Sul,
posteriormente praticamente todos os demais estados do Brasil
criaram as suas companhias de energia elétrica. No final dos anos
50 a crise energética atinge os principais centros urbanos do
país.
Os cortes de energia são sistemáticos, o racionamento entra para a
vida quotidiana. Esta situação, e a recusa sistemática da Light e
da Amforp de reinvestirem seus lucros no país, impulsiona a
intervenção estatal. 1960 é o ano de criação do Ministério de
Minas e Energia e da Eletrosul. Em 1962 é a vez de Eletrobrás, que
estava prevista na legislação desde 1954. Estavam criadas as
condições para a estatização do setor. Esta vai ser levada a
cabo pela ditadura militar, que sobe ao poder através do golpe de 1o
de abril de 1964. Somente em 1979, a Light Rio foi estatizada; em
1981 foi a vez da Light São Paulo, que passou à Eletropaulo,
empresa estadual.
Mas já desde 1973 se consolidava a estrutura básica do
sistema Eletrobrás, com a Eletronorte (criada em 1969) , Eletrosul,
Furnas e Chesf . O modelo estatal de grandes hidrelétricas teve
como fundamento o levantamento do potencial hidrelétrico realizado
na segunda metade da década de 1960, com apoio do Banco Mundial, e
do qual participou um consórcio canadense – Canambra. O
planejamento e a implantação de grandes projetos hidrelétricos
das décadas seguintes se apoiaram no inventário de potencial da
Canambra, completado, na Amazônia e Nordeste, por estudos feitos
pela Eletrobrás. No início dos anos 70 um evento internacional vai
mudar a situação energética em todo o mundo: a crise do
petróleo.
Com a elevação dos preços, que é reforçada por uma segunda
crise no final da década, os países centrais passam a transferir
para países periféricos e dependentes, rico em potencial
energético como o Brasil, uma série de indústiras que consomem
muita energia. Assim, o Brasil se trasnsforma, progressivamente,
juntamente com outros países periféricos, em um exportador de
produtos eletrointensivos, isto é, que exigem grande quantidade de
energia para serem produzidos. O Japão, por exemplo, praticamente
fecha sua indústria de alumínio primário, e passa a importar de
países como o Brasil.
Em poucas palavras: os países dominantes nos emprestaram dinheiro
para construirmos hidrelétricas, para produzir alumínio, para
exportar e pagar a dívida contraída. Os países centrais ficavam
com o alumínio e os juros da dívida, as grandes empreiteiras
construtoras de barragens ficavam com o dinheiro da obra (quase
sempre superfaturadas), os políticos e partidos dominantes ficam
com o dinheiro da corrupção … e o povo brasileiro fica com a
dívida externa, as florestas destruídas, os férteis vales
inundados, populações expulsas.
Itaipu custou 3 vezes mais do que projetado, Tucurui 4 vezes mais.
Os subsídios dados nas tarifas pela Eletronorte às indústrias de
alumínio montam a cerca de 250 milhões de dólares ao ano.
Ninguém era consultado. Consideradas de segurança nacional, as
decisões eram tomadas nos palácios (ou nos quartéis?),
secretamente. Ali decidiam que a Eletronorte subsidiaria os preços
da energia de Tucuruí a ser fornecida às indústrias de alumínio:
cerca de 250 milhões de dólares, a cada ano, são desde então
repassados, sob a forma de subsídio, às indústrias exportadoras
de alumínio, o que significa, que estamos subsidiando o consumo de
alumínio nos países dominantes.
As populações atingidas eram tratadas como gado, tangido com
violência e total desrespeito aos seus direitos: em Sobradinho, que
expulsou cerca de 70 mil pessoas, as pessoas quase são atingidas
pelas águas, pois não havia sido providenciado nem mesmo seu
reassentamento. E quando, como em Itaipu, houve tentativas de
resistência, a represssão foi brutal.
A
privatização do setor elétrico
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